A Terra Treme

Dia 20 de setembro, dia de enviar minha crônica para a Noga. Puxa, filé-mignon, véspera do início da Primavera, o tema estava ali, bem na minha cara. Mas não poderia falar de outro assunto, eu estava prestes a viajar.

Minha viagem ao México foi marcada para final de outubro, chegaria bem a tempo de conhecer a festa do Dia de los Muertos. Esse festival é comemorado há mais de três mil anos pelos astecas, maias, purépechas, náuattles e totonacas.

O culto aos mortos se estendia por todo o nono mês do calendário asteca, as celebrações duravam todo o mês de agosto. Na era pré-hispânica as pessoas chegavam ao extremo de preservar os crânios de seus parentes e os colocavam em altares construídos em casa mesmo, rodeados de flores e das comidas que o falecido mais apreciava, além dos pratos típicos da região.

Até hoje permanece a tradição, com pequenas diferenças. Os crânios voltaram ao seu devido lugar Mas permanecem os alimentos, os objetos preferidos dos falecidos, o espírito alegre do Festival, em que as pessoas acreditam que serão visitadas pelos seus mortos, e que por essa razão devem recebê-los com muita alegria e festa, para que permaneçam em paz, sem preocupação com os que ficaram por aqui. Colocam também representações dos quatro elementos – água, terra (frutos e alimentos), fogo (velas) e ar (papel picado que às vezes eles jogam para o alto).

Ah, e não falta uma cruz feita de sal, cinza ou terra, para lembrar que “ és pó e ao pó voltarás”. Os cemitérios praticamente viram “casas de festa”.

Em 2003, o Dia de los Muertos foi considerado Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO e, pode parecer estranho, festas muito parecidas se realizam em outros países. A própria Halloween, dizem, cada vez mais apresenta elementos da festa mexicana, embora a origem seja outra, o Halloween vem sendo comemorado desde o século XVIII apenas, e iniciou-se com os seguidores da religião wicca, praticando antigos rituais celtas, coisa de bruxaria, dizem até que tem partes com o “Marvado”, sei lá.

(detalhe do Mural “Sueño de una Tarde Dominical em la Alameda Central”, de Diego Rivera, marido de Frida Khalo, importantes pintores mexicanos.)

Bom, ultimamente tenho procurado viajar aos países em tempo de seus festivais – fim de verão, início de primavera, e outros, foi assim que escolhi o México, fiquei bastante curiosa em presenciar evento tão especial, diferente de tudo que já vi antes em minhas viagens, que não foram poucas.

Muito consternada vejo cidades que eu tinha pesquisado como pontos inegociáveis do meu roteiro, quase destruídas.

E fico de cá pensando: vulcões entrando em atividade recentemente, tornados, furacões cada vez mais violentos, terremotos. Também vemos “vulcões humanos” como o homem – míssil da Coreia do Norte, a trompeta Trump, que soa ameaçadora em tudo quanto é oportunidade que se apresenta, os corruptos brasileiros que “só dizem a verdade” e se declaram vítimas de um complô de empresários que, coincidentemente, denunciam fatos, os mesmos, e com os mesmos detalhes.

Presto minha solidariedade ao povo mexicano, mas mudei meu rumo.

E entendo: se até nós trememos diante de tanto absurdo, por que a Terra não tremeria?

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