A vida não é uma carícia…

Ouvi a frase acima num diálogo da peça “O inevitável trem”, de autoria de Pedro Jones.

Claro que não vou publicar um spoiler, mas a peça coloca você numa daquelas situações em que não existe alternativa — é pensar ou… pensar.

Por quê? Porque a frase não para aí, ela continua…

Uau, é isso mesmo? “A vida não é uma carícia, é um tapa”.

Tapa. Impactante, não acha? Mas, espere… o sentido total ainda está por vir, e Jones segue, talvez não com estas exatas palavras: “Depende se você quer bater ou apanhar”.

E aí eu fico refletindo quantas vezes se fica esperando uma carícia da vida e ela nos responde com um tapa. Ou somos surpreendidos pelas carícias da vida, e aí o inesperado leva ao próprio Nirvana.

Tudo uma questão de momento… Sim, o que é a vida senão um monte de momentos — alguns felizes, outros nem tanto, e outros ainda profundamente infelizes.

Após assistir à peça, enquanto voltava para casa, voltei-me às lembranças do passado, importantes momentos, recordando como aprendi coisas nos tempos difíceis, e o que esses momentos representaram no meu crescimento como pessoa — eu que não dou muita bola para as conversas de que “é na dor que se aprende”.

Para mim, a dor não ensina coisa nenhuma, porque o que se aprende na dor é que devemos lutar contra ela, não fugindo, mas evitando-a sempre que possível. O aprendizado pela dor continua sendo uma adaptação, e não uma mudança efetiva, uma mudança que se quer fazer porque atende ao nosso desejo.

Eis por que uma das minhas frases preferidas é aquela do Dalai Lama: “Só existem dois dias no ano em que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã. Portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver”. A leitura que faço do pensamento do mestre é que hoje é o dia para escolher ser feliz.

E… eu estava tão “longe” que me assustei quando ouvi a voz dizendo: “Chegamos, não é esse o endereço”?

Olhei ao redor, respondi que sim, obrigada. Felizmente não precisei tirar dinheiro da bolsa, porque neste mundo de Ubers, Cabifys & outros mais, essa etapa já foi superada — o que aliás, numa cidade como o Rio de Janeiro é essencial, pois se fica o mínimo necessário dentro do táxi parado.

Já deitada, meu pensamento continuava percorrendo caminhos passados, e me senti muito agradecida às pessoas — autor, atores — que me proporcionaram momentos tão incríveis e importantes. Ao mesmo tempo, senti uma grande tristeza (e preocupação), quando me lembrei de uma notícia que li na semana passada — dois teatros fechando no Rio de Janeiro. Sabe-se lá quantos já fecharam por esse Brasil afora…

Como protestar contra isso? Acho que a única forma que está em nossas mãos é IR AO TEATRO. Cada vez mais.

A arte, em sua plenitude, se revela quando transforma alguma coisa em quem olha, em quem assiste, em quem lê.

Fiquei encantada com essa peça “O inevitável trem”, com dois atores incríveis, interpretação que nos capta a emoção e nos mobiliza o tempo todo. Espero que você se dê essa oportunidade, a da transformação.

Ah, os atores são Carla Nagel e Giuseppe Oristanio. O teatro é o do Jardim Botânico.

Foto Marcello Sá Barretto/ AgNews.

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