Ai, meus sais!

daisydez10Sempre que eu ouvia essa expressão engraçada, imaginava uma Maria Antonieta qualquer pedindo sais de banho. Curiosa, fui pesquisar a origem. Eu estava enganada…

Desde o início do século XIV as mulheres (e até os homens) se preocupavam em dar forma ao corpo, eliminando barriguinhas, culotes, pneuzinhos. E toca de enfiar nos tecidos uma lâmina sólida — de madeira, marfim, madrepérola, prata, o que fosse que o bolso pudesse comprar, para fabricar esbelteza e beleza. Aquilo apertava mais do que… sei lá o quê. Mais tarde veio o uso de barbatanas de tubarão.

Ao longo do tempo, só as mulheres deram continuidade ao uso, que devia ser uma tortura, já que só em 1823 passaram a ser fabricados modelos de espartilho que poderiam ser vestidos pelo próprio usuário, sem ajuda de outra pessoa. Mas o povo devia gostar de um aperto, porque dizem os pesquisadores do assunto que lá por 1850 existiam mais de sessenta marcas da peça.

Passa o tempo que passa, e, durante a guerra de 1914, já não havia quem ajudasse. Os ricos puseram as barbas de molho (as próprias e as do tubarão), sumiram os espartilhos e vieram as cintas. Mas, você deve estar pensando… o que tem a ver o espartilho… com a menina do bueiro?

E eu lhe respondo qual a associação: o ENGANO, o ABSURDO, a TORTURA. Enquanto pensamos nos tais “sais de banho”, tem gente que usa água suja para se limpar. Enquanto dizemos, orgulhosos, que “o petróleo é nosso”, os jornais informam que o escritório de advocacia Wolf Popper entrou em Nova York com uma ação coletiva contra a Petrobras, alegando que a empresa divulgou informações falsas e omitiu “esquema multibilionário de corrupção, suborno e lavagem de dinheiro”.[1]

O mesmo jornal divulga que a empresa de um dos condenados no mensalão recebeu R$ 896 mil a título de consultoria, dias depois de a mesma empresa ter ganhado contratos de R$ 4,8 bilhões para atuar na Abreu e Lima.

Na Justiça (CGU), o segundo jurista entregou os pontos. O primeiro saiu do STF por motivo de saúde. Saúde? Então tá.

Enquanto isso, a menina toma seu banho lá no bueiro. Talvez estejam enchendo o seu estômago, mas, de certa forma, ela é mais uma “Maria Antonieta”, não a grã-fina das comédias que pede os sais, mas a decapitada mesmo — não estão cortando a cabeça da menina, mas lhe cortam os sonhos, a dignidade, cortam-lhe a oportunidade de ascender a um patamar melhor do que aquele bueiro.

Faltou dizer o porquê da frase e lhes digo agora: as mulheres que usavam espartilho carregavam no busto um vidrinho com sais, e o pediam quando estavam a sufocar e precisavam de alguma substância que as salvasse do quase desmaio. Era só dizerem “Ai, meus sais” que logo alguém procurava o vidrinho e derramava-lhe o conteúdo nariz adentro.

Pois estamos sufocando, eu e muita gente por este Brasil afora. E não adianta pedir os sais, porque o espartilho está apertado demais, cada vez mais.

Só espero que não se precise de uma guerra, como aconteceu antes, para que ele saia de moda. E espero também que os corruptos ponham suas barbas de molho, porque desta vez, a Justiça parece que é pra valer.

[1] O Globo, 9 de dezembro de 2014.

 

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