Ainda no boteco

motherdaughter1— Tem certeza? Pra mim, não.

— Tenho certeza sim.

— Como pode garantir, você as conhece?

— Não, mas mesmo assim eu GARANTO!

Até aqui, para ser sincera, eu nem tinha notado que a mesa ao lado estava recém ocupada por aquele casal. E digo recém porque a nossa manhã de sábado já era velha, tinha quase entrado pela noite, inclusive o papo já estava ficando morno, a tal mesa vizinha já tinha sido ocupada e desocupada muitas e muitas vezes, eu já tinha ouvido a frase “O tempo está esquisito…”. Quando em nossa turma alguém se liga na nas condições climáticas, é sinal de que é hora de levantar acampamento. Confesso mesmo que até já estava pensando em ir embora, mas aquele GARANTO aguçou a minha curiosidade.

Olhei. O que vi: duas mulheres bem vestidas, cabelos notadamente bem tratados, unhas idem, esmaltadas, maquiagem discreta, de bom gosto. Não eram gordas nem magras, tinham aquele tipo clássico de mulher brasileira, quadris pronunciados, cintura fina, uma delas visivelmente mais velha do que a outra.

Logo que olhei, percebi qual era o assunto. As mulheres estavam com as mãos dadas por cima da mesa, e se acariciavam.

— Garante? Tá, e daí?

— E daí que é uma pouca vergonha…

Éramos cinco na nossa mesa e, calados, ouvíamos a discussão na mesa da frente, onde se sentavam dois casais de idosos, uma mocinha de aproximadamente dezoito anos e um rapaz que talvez tivesse seus vinte e tal.

Olhávamos uns para os outros, sem dizer palavra, apenas acompanhando a conversa entre os casais, que não faziam a menor questão de disfarçar sua irritação.  Nós, calados, queríamos saber aonde aquilo ia dar…

— Antigamente elas se escondiam, agora se mostram desavergonhadamente…

— Pai…, calma aí — disse a moça.

— Calma o quê, minha filha, isto é um acinte!

— Olha que elas te enquadram na Lei de Homofobia… —  via-se claramente que o rapaz também estava nervoso.

— Ainda tem mais essa — a mulher menos idosa observou. Se eu vejo um casal hetero se agarrando num restaurante, eu posso pedir ao garçom para dar uma chamada neles, mas se for um casal homossexual, de jeito nenhum… O próprio garçom se nega.

— Puxa, Zilah, não é bem assim — replicou o que eu imaginei ser seu marido.

— É assim, sim! O casal hetero vai preso por atentado ao pudor, mas o casal homo te processa…

Foi aí que, ouvindo o indefectível “Isso é Brasil”, íamos retomando a conversa. Naturalmente nos posicionaríamos diante da questão, mas, subitamente, o casal de mulheres chamou o garçom.

Pagaram a conta e, quando iam passando em frente à mesa do falatório, a mais velha disse em voz bem alta:

— Senhora, acrescenta aí, à lista de pecados o INCESTO! — terminou quase gritando.

Foi quando a mais jovem encarou os casais e gritou:

— Vocês não têm mãe, não, seus filhos da puta?

E saíram, mãe e filha, de mãos dadas, pela rua afora.

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