As coisas estão mudando…

dillanGosto quando vejo o inusitado. Gosto mais quando vejo a ousadia. E gosto muito mais ainda quando a ousadia parte de pessoas ou instituições conservadoras.

Tivesse a Academia Sueca concedido o prêmio Nobel de Literatura a um certo Robert Allen Zimmerman, a opinião pública mundial ficaria pensando: Que Robert será esse? Especialmente no nosso Brasil, onde literatura e literatos quase sempre são festejados depois que viram celebridades, por outra razão que não a literária. Raríssimos são os escritores conhecidos apenas e somente por sua obra literária.

Só que o tal Robert Allen Zimmerman é nada mais nada menos do que… Bob Dylan!

Poderíamos dizer que a Academia Sueca “pegou pesado” quando justificou a escolha dizendo que Dylan criou um novo modo de expressão poética na tradição americana. Mais me pareceu um pedido envergonhado de desculpas ao mundo da literatura. Não sou expert no assunto “Literatura Americana”, mas acho bem difícil que ele tenha realmente criado um “novo modo de expressão”.

Agora, cá pra nós (e para os suecos), quem é ousado mesmo não precisa se justificar forçando a barra. Especialmente para um homem que já ganhou o Pulitzer… Aliás, Dylan é a primeira pessoa no mundo a ter cinco dos mais reconhecidos e cobiçados troféus no mundo das artes. Além do Pulitzer, tem um Oscar, um Globo de Ouro e doze Grammys. Um Nobel não ficará mal nessa coleção, não acham?

Analisando a justificativa me vem uma imagem à cabeça: uma velha senhora compra um traje moderninho, tipo um macaquinho curtinho, veste e quando se olha no espelho fica pensando, será que esta sou eu? E aí acrescenta: Mas na loja só tinha essa roupa no meu tamanho… E a gente tem que responder:

— É mesmo, minha senhora, ninguém vai estranhar não, o mundo está mudando. Pessoas como a senhora já podem se apresentar assim.

O próprio Dylan se antecipou quando afirmou numa de suas letras que “as coisas estão mudando”. Se considerarmos que ele escreveu isto em 1964, podemos admitir que a mudança existe, em compasso de tartaruga, mas existe.

Pois é… As coisas estão mudando, mas o poeta permanece para sempre jovem (1) e, apesar dos senhores da guerra (2), desejo que o vento leve suas lindas palavras (3) e que ele não precise tão cedo bater na porta do céu (4).[1]

 

[1] Referência às músicas de Dylan “Forever Young” (1), “Masters of War” (2), “Blowin’ in the Wind” (3) e “Knocking on Heaven’s Door” (4).

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