Batata quente

batataEntre cusparadas e elogios absurdos, seguimos nós, a cumprir o triste destino a que os habitantes da república dos crustáceos — ou moluscos — nos confinam. Aliás, aos que divergem podemos democraticamente admitir a classificação de molusco, é bom acrescentar.

Viramos o país do “se todo mundo faz eu também posso fazer”, do “eu assinei, mas não sabia…”, “não tenho conta no exterior em meu nome, sou apenas o beneficiário”. Parceiros de ontem se transformam em inimigos de hoje, o chefe-maior denomina seus seguidores de peões, o Palácio do Governo vira palanque para extremistas, a economia vai para a cucuia, o desemprego chega ao número espantoso de 10 milhões de desempregados, o que significa pelo menos outros 10 milhões de desassistidos, porque se presume que atrás destes 10 milhões existem dependentes que subsistem por causa daquele emprego perdido.

Ao mesmo tempo, pessoas que trabalharam por pelo menos vinte e cinco anos e em seguida se aposentaram, têm seus proventos desrespeitosamente adiados por meses. Os que ainda trabalham podem se manifestar, fazer greves, coisa e tal. Mas os inativos, fazem o quê?

E por quê? Ah, porque venderam facilidades, e todos estamos hoje colhendo as bananas desta república em que quiseram transformar nosso país. Facilidade, meus amigos, tem preço. Preço alto. Para demagogia e mentira o preço é mais alto ainda.

E cá estamos nós a bordo de uma nau sem rumo. Até o Senado resolver desempenhar seu papel com dignidade.

O governo (melhor seria chamar desgoverno) se diz vítima. VÍTIMA, ora vejam só. As pessoas deitam e rolam, são inconsequentes, irresponsáveis, mentirosas, inventam um cenário à custa de marketing e maquiagem de dados, garantem que está tudo sob controle, são eleitas e na semana seguinte mostram suas garras, embora ainda venham se escondendo em máscaras de salvadores.

Se estas são as vítimas, o que seriam os que foram enganados, os que viram, por exemplo, surrupiados o nome e a capacidade de uma empresa que já foi orgulho de todo brasileiro? Trabalhar na Petrobras, no passado, era o sonho de tanta gente, gente de extrema competência, e hoje é símbolo da ruína que permeia nosso país.

Sem dúvida, a Lava-Jato foi a melhor coisa que aconteceu por aqui nos últimos quinze anos. Gente de valor, esses brilhantes profissionais da Justiça e da Polícia Federal. Pelos áudios vazados, posso imaginar quanta pressão sofreram e ainda vão, certamente, sofrer. Houve até quem quisesse ser ministro para ter “foro privilegiado”. Tenho mesmo ouvido dizer, por comentaristas na TV, que “querem escapar do Moro”. Acontece, meus amigos, que o Moro é apenas um brilhante, supercompetente e destemido juiz federal. Não é uma Instituição. E as Instituições no Brasil estão em pleno funcionamento. A exceção, pode-se dizer, é a Câmara de Deputados, que está travada por um homem que “é apenas o beneficiário”.

Mas a Justiça, essa vai continuar funcionando enquanto estivermos numa democracia. Acredito nisso. Portanto, não adianta chiar, espernear. No fundo, toda essa gente se entende porque são “vinho da mesma pipa”. A única diferença está no modo de agir: uns louvam bandido, outros cospem, outros incitam o povo à agressão. Pois os que sofrem de sialorreia devem ir se tratar, em vez de ficar dando mau exemplo para as crianças.

E, ó, não adianta ir para o mundo fazer queixinha de golpe, não. Hoje, o Moro está recebendo um prêmio como uma das 100 Personalidades Mais Influentes no Mundo. Nos Estados Unidos. Mais um prêmio.

Vão se queixar onde? Na Venezuela? Se for lá, não se esqueçam de “carregar no laquê”, porque o Maduro está pedindo que economizem energia, que não usem secador de cabelo, que vejam menos TV. A Venezuela hoje é uma fartura: “farta tudo”. Com aliados como este, ninguém precisa de opositores…

Mas o Brasil vai superar, sabem por quê? Porque agora depende de nós, de mim, de você, que precisamos estar alertas e vigilantes, que precisamos ir para a rua pedir justiça, que vamos mostrar que aprendemos a lição e vamos nos informar sobre as pessoas às quais estamos oferecendo nosso voto e nossa confiança.

Depende de nós, que não vamos corromper guardas para não levar multas, nós que não vamos entrar na contramão, nós que vamos mostrar que aprendemos que, ou viramos cidadãos, ou vamos mesmo ficar nas mãos do primeiro projetinho de poder que aparecer nesta Terra de Santa Cruz.

A batata quente não está nas mãos do próximo presidente, como tenho ouvido dizer. A batata quente está em nossas mãos.

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