Carta à máquina

daisy7janNum Rio, de um janeiro qualquer, não rio mais porque você… É, você mesmo, seu despudorado, mete-se na minha vida como o sol se enfia pela minha janela adentro, mesmo fechada, seu invasor.

Na sua intromissão, fica aí me conectando aleatoriamente, com conexões que eu não desejo nem pedi. Cheio de defeitos, pra me azucrinar, seu tipinho sem graça, sem estética, sem charme.

Não me permite trabalhar em paz e em silêncio, sem emitir aquele pipipi sacal e atordoante, me avisando que posso entrar. A mim, que já estou de saída, porque a noite me espera, com seu brilho e sua ilusão.

Logo hoje, tinha que resolver ficar de cabeça pra baixo, pra me atrapalhar?

Que decepção: tão novo e já esclerosado… e eu, que tive, atendendo à minha mais recente convicção, o cuidado de trocá-lo quatro meses atrás.

Pois é: algumas mulheres trocam um de quarenta por dois de vinte; eu decidi vou trocar um de cinco por outro recém-nato.

Foi isso mesmo que você me disse? Pois não repita isso, que te processo por injúria e difamação, não sou pedólatra!

Sempre fui meio paradoxal mesmo, contraditória congênita: não suporto barulhos e ruídos vãos, adoro o sossego de minha casinha quieta e calma, mas resolvi nascer em pleno carnaval; sou politeísta, por assim dizer, porque reconheço os deuses que habitam em cada um de nós, isto é, quando assinamos com eles contrato de locação, mas quando se trata de amores ou de ódios sou monobloco por essência. Jamais consegui odiar a mais de uma pessoa, ou amar a mais de um (por vez, é claro).

Hoje, o objeto do meu mais sincero e profundo ódio é você, com sua antipática postura invasora e defeituosa. Fico, eu de cá, pensando numa forma de me vingar, porque ódio que se preza pressupõe uma vingança, daquelas bem terríveis. De cara, imaginei te trocar de lugar, deixar você assando ao sol da varanda, no meio de almofadas que teriam o objetivo explícito de te sufocar, em meio aos ruídos e estalidos que o sol provoca ao distender dos metais de portas e janelas.

Isso! Deixo-te lá, abandonado, imaginando se o estalido estará anunciando o desabamento final. Deixo-te lá, ausente dos meus dedos que te batucam e incomodam, mas que, às vezes, sabe bem como te acariciar e te deixar louquinho de… bom! Ou eu falo em ódio ou…

Melhor parar por aqui; alguém, um dia, disse que não existe amor sem ódio, ou vice-versa, não lembro agora. Tava certa a figura; vejo, agora, entrarem juntos na sala Ódio e Amor. Estão de mãos dadas, e me convenço, enfim, que só se odeia a quem se ama; aos outros, a indiferença, total e destruidora.

Continuando o meu projeto de ódio a você, busco a vingança, mas não encontro. Eu queria uma vingança cruel, pra acabar de vez com a sua intromissão de macho, que acha que pode se meter em qualquer buraco sem autorização explícita. Ah, já sei! Boa vingança: mudo o seu nome.

Nunca mais te chamarei de “computador”, até porque das dores ando fugindo a galope. Teu nome, de agora em diante, será “máquina”! Tá vendo? Para ativar e maximizar minha vingança, mudo o seu sexo, te deixo mais pobre de sílabas, e ainda te taco um Q, letrinha mais sem graça! Quebro sua eufonia, te deixo sem rima, e ainda por cima te iludo: vai ficar todo esperançoso, porque as duas últimas sílabas, afinal, parecem lembrar fortuna. Fica esperando, meu bem, você não vai passar da quadra desbotada da almofada quadrada que vai te abrigar até a próxima troca.

Nonsense? Que seja… “Nonsense” é você ter ficado desse jeito… de cabeça pra baixo, só pra me provocar. Não faz mal; mesmo assim, consegui, e a crônica saiu. E NÃO SAIU DE CABEÇA PRA BAIXO!

Beijos mis!

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