Da boca pra dentro

Foto da autora

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Em Viena pego carona nas amizades da Estefânia, amiga das antigas, e eis que me vejo conduzida a restaurantes tradicionais da cidade.

Não  percebo, a princípio, muita novidade. Bons restaurantes sempre oferecem boa comida, instalações adequadas, bom atendimento, limpeza. Mas começo a observar os cardápios. Naturalmente,  peço  a versão em inglês, porque de alemão só sei falar a palavra “alemão”.

Estou num restaurante em Mortendorf (isso mesmo, Mortendorf), seguindo o rio Danúbio a caminho do Monastério de Melk, área preservada pela UNESCO.

À primeira leitura me surpreendo um pouco, pois não é que, logo na capa do cardápio, eu leio o que passo a traduzir agora? “Uma  saudação de boas-vindas para você, querido  cliente estrangeiro”, mas, espere um pouco, minha surpresa não está aí. A seguir, leio no tal cardápio a história do restaurante. Originalmente, o prédio tinha sido a casa de um famoso ladrão, que é comparado por aqui a Robin Hood, porque roubava dos ricos para dar aos pobres. Não fiz comentário algum, não me pareceu apropriado diante da gentileza de pessoas com quem não tenho intimidade. Apenas registrei a história na minha mente.

Novo restaurante, mais requintado — o restaurante  Stefanie. Desta vez a história não está na capa… está em cada prato, que faz parte do que o menu classifica como clássicos vienenses. E não é brincadeira, não. Existe um prato com nome de palavrão: Grenadiermarsch,, Stefanie — não sei o porquê das duas vírgulas, só sei que estão lá. Agora, a história do acepipe: “granadiers” eram soldados, e sua comida nos tempos difíceis do império e do reinado era feita com sobras de carne, batatas e macarrão.  Acontece que muitos membros da família imperial e do reinado serviam ao exército e comiam aquela comida, levaram para a corte a “especialidade” e assim ela se tornou um prato clássico vienense, muito parecida com a lenda (ou história) da nossa feijoada, mas você já percebeu a diferença, não é? Nossos guerreiros eram escravos, e o tempo só era de escassez para eles. Pois é.

Continuando minha leitura no mesmo menu, leio “,,of the intrinsic values” (vírgulas e aspas como estão, por favor,  sra. editora). Tradução: “de valores intrínsecos”, o prato e feito do que eles chamam de entranhas de bezerro, acrescentando a informação de que é um prato em extinção. Oops! Tudo a ver com o que eu venho pensando  desde o início.

Aqui se aproveita a comida para alimentar da boca pra dentro, para manter e estimular o gosto pelas tradições, para mostrar que em tempos de penúria há que se pensar em racionalizar até mesmo o que se come, isto é, fazer a educação sair do papel.

Tenho que confessar que nunca aprendi tanto em situação tão inusitada, o que me prova que qualquer lugar e qualquer situação pode nos trazer ensinamentos se estivermos atentos e  abertos  para o novo, mesmo que esse novo seja tão velho como o que estou relatando  aqui,  fatos de séculos atrás.

Uma aula de gastronomia? Talvez. De história? Pode ser. De vida? Sim, uma aula de vida… e a comida é danada de gostosa. Ainda bem que não estou mais em “Eataly”.

 

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