De raposas e ouriços

foxprocHoje é Dia do Motociclista e, talvez não por acaso, Dia Internacional de Prevenção de Acidentes.

Ô coisa deliciosa essa — montar numa moto e sair por aí. No meu caso, no lugar do carona. Como nunca tive moto, substituí a própria pela bicicleta elétrica, ou a comum, o que, por sua vez, me remete à cavalgada. E concluo que os três me trazem a sensação de que sou poderosa, de que velocidade, distância e medo não são barreiras que me imobilizem.

Lembro-me de grandes emoções que tive quando cavalgava. A mais bizarra, sem dúvida, foi a da raposa.

Estava eu em Secretário, no Rio de Janeiro, e cavalgava pelo campo, muito feliz da minha vida, quando ouvi um uivo — lamentoso, estranho. Não me assustei; ao contrário, fiquei penalizada, porque logo percebi que era algo relacionado a dor.

Diminui a marcha, ia bem devagar olhando ao redor, quando avistei uma raposa, pequena, cor de mate, que agarrava em suas patas alguma coisa que se mexia, e, pela distância, não consegui ter certeza do que era. Cheguei mais perto (estava protegida em cima daquele cavalo alto e forte, o Canela).

E vi, meninos e meninas, eu vi. E me vi diante de uma cena única: uma raposa, que nem olhou para o meu lado porque estava ocupada com um bicho meio que uma bola, e a danada tentando por todos os meios desenrolar aquela bola que, parece, a cada movimento dela, a enchia de espinhos.

A pobre da raposa não desistia, tentava e tentava. Mas não era agressiva, dando mesmo a impressão de que apenas queria abraçar e brincar com sua presa.

Parada estava, parada fiquei, o que me deu algum trabalho, porque cavalos inteligentes sabem que no entardecer animais como o ouriço-cacheiro saem de suas tocas e troncos ocos para caçar insetos. Canela queria mais era se mandar dali.

Parada estava e parada fiquei por uns bons quatro minutos, até que o ouriço conseguiu a proeza de liberar a parte de sua cauda, e lançou-a para o arbusto próximo, surpreendendo a raposinha, que aí sim, deu uivos mais altos e longos, olhando o bichinho se afastar, saltando de galho em galho e sem poder fazer nada para tê-lo de volta.

Esse episódio eu guardo entre os muitos outros que, tendo por hábito me deter na contemplação da natureza, fazem parte do meu acervo de temas para reflexão…

E vamos a ela: quantas vezes observamos pessoas que se comportam como minha amiga raposinha e quantas como o ouriço-cacheiro?

O ouriço, este não ataca nunca, segundo diz o pessoal do lugar. Apenas abre o seu “leque” de espinhos e espera o ataque. O problema, penso eu, é que, como no caso que lhes conto, o “ataque” me parecia simplesmente uma forma de brincadeira, um abraço, um afago. E quem se comporta como o ouriço-cacheiro, perde a oportunidade de receber afeto.

A raposa, por sua vez, me lembra aquelas pessoas que estão vendo que daquela relação não vai sair nada, nadinha, e não desistem, preferindo sofrer cada vez mais arranhos do que  optar por uma saída honrosa.

E é assim que a manhã vira tarde, que a tarde vira noite e que o dia vira outro dia, com novas histórias, novas reflexões, e alguma (alguma? kkk) digressão, por que sair do Dia do Motociclista para falar de ouriços e raposas… pelo amor de Deus.

Enfim, um ótimo dia para os meus amigos motoqueiros, que aproveitem a sua liberdade ao vento, com muito cuidado.

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