É assim que começa

daisy15Lá pelos dois anos de idade o garoto começa a ouvir: “Homem não chora”. Nesse instante começa a queda de braço entre sua humanidade e os superpoderes da masculinidade.

Claro está que a frase é de tal forma consagrada em nossa cultura que não são todas as pessoas que conseguem ver o tamanho da imposição que ela encerra. Já tive ocasião de discutir o assunto com pessoas cultas, profissionais bem-sucedidos, que disseram que censurar isto seria “papo cabeça”, “poesia”, dentre outras coisas.

Ora, imaginem vocês o que deve sentir um menino que esteja lá pelos seus dez anos, que aceita a imposição e se vigia para “não chorar”, e o que fica inculcado em sua psique. Será o mero chorar lágrimas?

Pior que não… porque chorar passa a ter o significado de demonstrar fraqueza.

Muito bem, se só chorássemos por medo, por sentir dor, seria uma coisa. Mas também se chora de emoção, choramos diante da arte, diante da beleza. E é aí que a coisa pega, no meu entender. Porque o que fica comprometido é a sensibilidade.

Homem não chora, e também não “ sente”. Só que é impossível o “não sentir”. E para que lugar vai o “sentir”?

Temo que certamente para um lugar muito escondido e profundo, onde se formam os grandes traumas e as enormes frustrações. O único lugar em que ele consegue carregar o peso de ser homem.

Nossa cultura assinala que capacidade física — força, coragem, liderança, são atributos masculinos, daí a origem de algumas das tantas dificuldades que a mulher e o próprio homem encontram no mercado de trabalho. Em outras culturas, entretanto, isso não ocorre. Na Finlândia, por exemplo, você encontra mulheres nas mais diversas atividades, por aqui ditas masculinas. Como estivadoras, ou mecânicas, por exemplo.

Ou seja, é tudo uma questão de cultura.

Nos horrorizamos esta semana com a tragédia de Orlando. O atirador, segundo consta, foi várias vezes à boate e naquele mesmo dia flertou e dançou com alguns daqueles que mataria logo a seguir. Obviamente, esse comportamento tem relação com sua ação posterior. Ele, imagino, deve ter carregado o peso de precisar ser quem não podia ser. Mas, desta vez, o halteres que ele carregava era uma AR-15.

Quem sabe quantas vezes ele ouviu aquela frase lá do início?

 

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