E o Rio de Janeiro continua lindo!

daisy4marEra, aquele, realmente um dia estranho; eu me sentia como num deserto, paisagem árida, areias sem fim. No deserto de mim mesma não havia calor que me aquecesse o corpo; sentia um gelo na alma, uma impressão de que aquele seria um inverno interminável.

Tentei ler alguma coisa; as letras saltavam do papel, invasoras da minha sala, do meu tempo, da minha vida. Não eram agressivas, mas tinham uma mobilidade que não se adequava aos tempos, lentos, do deserto em que eu vivia.

Fechei o livro cautelosamente, tomando todos os cuidados para que nenhuma daquelas letras escapasse, e, aproveitando o meu descuido, escrevesse algum trecho na minha vida que eu não quisesse ler depois.

Saí para a rua, procurando um pouco de ar fresco, mas queria mesmo era encontrar pelo caminho uma ventania daquelas que nos desmancha o cabelo e desordena os pensamentos, nos arrebata o desejo, e consegue nos transportar outra vez para o melhor de nossa vida.

Sentei-me no banco de uma pracinha simples, florida, onde, imagino, as crianças gostam de brincar pelas manhãs e os velhos de se acomodar à tarde, para assistir ao pôr do sol, antevendo o seu próprio destino.

Estava pensativa, e não olhava para o que estava ao redor: olhava para dentro de mim mesma. Foi com alguma surpresa que me peguei sorrindo para aquela figura, uma resposta ao seu sorriso, que não era de alegria, nem de simpatia, nem inspirava outra sensação que não fosse solidariedade e paz.

Ele me olhava diretamente nos olhos, não desviava o olhar nem por um segundo, e senti certo constrangimento. Não; melhor dizer que não me senti constrangida, apenas intrigada com a insistência de seu olhar.

Tentei disfarçar, fingindo que olhava para um lado diferente, para as flores do canteiro ao lado. Eu queria poder ver por inteiro aquela figura imensa, que me atraía tanto, me olhando intermitentemente sem me causar desconforto. Eu, que jamais gostei de ser alvo de olhares como aquele, em outra circunstância certamente teria me levantado e procurado outro lugar, onde pudesse estar sozinha com meus pensamentos.

Finalmente consegui olhar para a figura inteira, e não apenas para seus olhos.

Impossível calcular a sua idade; tinha o ar de sabedoria dos que já estão aprendendo há muitos anos. Seus cabelos, compridos, paravam nos ombros; tinha os dedos longos, um ar alegretriste.

Era bonito. Sem dúvida, era muito bonito. Não que eu pudesse localizar essa beleza em alguma parte do seu corpo; era uma beleza percebida, não explícita.

Estava justamente pensando nisso quando ele tornou a olhar para mim e, levantando-se, caminhou em minha direção; fez um gesto, como se pedindo permissão, e sentou-se ao meu lado, sem que eu tivesse tempo de responder.

O sorriso continuava estampado em sua face, e por alguns instantes não nos falamos, até que ele fez um comentário sobre a ventania que se aproximava. Espantada, já que não percebia sinal algum de ventania, respondi que ele estava enganado; o tempo estava quente e seco, nada de ventanias a caminho. Ele riu mais uma vez, e recebi com satisfação o seu sorriso, sorrindo também.

— Você vem sempre aqui? — perguntei, com cerimônia.

— Venho, e posso afirmar que esta cidade é uma das minhas favoritas. A natureza fez nela um ninho de amor e de beleza, e nunca nada nem ninguém vai conseguir destruir isso. Por maior que seja a destruição, a corrupção e a maldade, este lugar será preservado.

Notei que ele falava meio arrastado, talvez fosse um estrangeiro… Perguntei-lhe a nacionalidade. Ele parecia já esperar a pergunta; respondeu-me que tinha tantas que seria muito demorado enumerá-las.

Falamos-nos um pouco. Ele iniciou um assunto, sempre olhando em meus olhos, mas, de repente mudou de rumo e insistiu na história da ventania que se aproximava, traçando um paralelo entre o seu efeito nas árvores e o que poderia causar às pessoas.

Fez algumas considerações sobre o que seria a paz; discutimos um pouco sobre isso, eu com a visão convencional — ausência de guerras, coisa assim —, e ele me dizendo, com toda convicção, embora falasse calma e mansamente, que a paz só existia no interior de cada um.

— A paz absoluta não pode constar no dicionário da Humanidade, o mesmo que abriga palavras como ganância, exploração, corrupção — riu e continuou:  Dicionário com muitas páginas é mais valorizado.

Definitivamente, seu humor era dos melhores que eu já tinha conhecido.

Com a expressão de quem está convicto do que diz, ele acrescentou:

— Faça a sua própria Paz; não espere que ela venha de fora, ou que seja produzida por alguém que não você — e sorriu o seu sorriso manso quando acrescentou: — A paz também pode destruir.

Eu o olhei quase indignada, ele compreendeu e continuou:

— A paz, de certa forma, alimenta a guerra! É tão grande que não cabe nos planos dos homens; só cabe dentro dos seus corações.

Incrível ser aquele, que, coincidentemente, alcançava a minha mente, adivinhando exatamente a minha reflexão daquela tarde. Balbuciei alguma coisa, ele se antecipou ao que eu diria, me apontando o céu com nuvens meio cinza que, agora sim, me faziam acreditar numa chuva para mais tarde, talvez pela madrugada. Apontou e disse:

— Os ventos levarão as cinzas, para que as nuvens azuis possam, soberanas, colorir a sua vida.

Cinzas? Azuis? Colorir a minha vida? Eu mal podia, agora, ouvir suas palavras, naquela voz forte, grave, arrastada.

Estava mais intrigada ainda e pensei fazer-lhe outras perguntas, quando ele mais uma vez se antecipou, dizendo que estava ali para fotografar a paisagem e poder reproduzi-la depois, em outro lugar. Estranhei, pois não vi máquina fotográfica, nada tinha nas mãos.

Não precisei dizer nada; ele percebeu o meu espanto, repetiu a palavra fotografar, ao mesmo tempo em que apontava para os olhos.

Muito estranho me parecia; cada vez mais estranho. Outra vez fixou meus olhos e disse:

— É um dos meus talentos!

A noite já era chegada, não se distinguia mais o colorido das flores, a praça já estava quase deserta, mas eu não conseguia me despedir daquele ser, magnífico ser que trazia a paz no olhar.

Ele então se levantou, me fez um gesto de despedida e disse:

— Tivemos uma boa conversa e eu sequer disse o meu nome.

Cada vez mais perplexa, fiz um sinal afirmativo com a cabeça. Estranho bem-estar me trazia a sua companhia, mas, ao mesmo tempo, um desejo de calar-me e apenas ouvir sua palavra. Pensei em perguntar seu nome, mas ele se adiantou:

— Meu nome? Davi Ernst Uhlm da Silva, mas quase sempre atendo pelas iniciais.

 

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