ET no BRT

daisy abr22Nas minhas viagens de BRT (Bus Rapid Transit) sempre encontro inspiração para minhas crônicas. Já me perguntaram a razão para eu insistir nesse meio de transporte, quando poderia ir de táxi, ou em meu próprio carro. A resposta é: “Me faz bem ouvir o povo”.

Não que eu me julgue pertencente a alguma casta, mas a verdade é que quando nos fechamos em nosso mundinho, andando de carro ou de táxi, perdemos uma ótima ocasião para nos atualizarmos sobre o que pensa a “massa”. Acho que a massa tem uma sabedoria, um humor e uma forma de comunicação especialíssimos. Por exemplo, aprendi algumas novas gírias que não ouviria se não me dispusesse a essa forma de convivência.

Sim, as pessoas com quem convivo não falam gíria, coisa que preciso aprender. De repente, um dia vou querer compor um personagem mais jovem, ou bem popular, e aí? Vou ter que sair inventando? No way…. É muito mais prático sair aprendendo no nascedouro, ou seja, no meio da massa. É bem verdade que às vezes, e não tenho vergonha de revelar, me sinto meio que uma ET, no meio de palavras e gestos e atitudes tão diferentes daquelas a que estou acostumada.

Bom… naquela manhã o ônibus estava quase vazio, e eu, como sempre com a intenção de me municiar de assuntos para esta “batalha” semanal, fiquei meio desapontada quando reparei que no vagão onde estava só havia uns poucos gatos pingados. Hummm… hoje não vai ter conversa por aqui…

Mas, oh, sorte amiga, eis que adentram o “bus” (grande frescura essa de chamarem Bus Rapid Transit, não podia ser o Rápido?) dois marmanjos, um com um bigodinho maroto, blusão de couro encharcado de suor, mas que lhe dava a aparência de caubói, e outro de calça jeans e camisa social branca. Sabem como se vestem aqueles missionários de uma religião que eu não saberia nomear agora? Pois é, meu personagem assim estava vestido. Na verdade, ao pôr os pés no lugar ele não sabia que seria meu personagem, mas já era, irresistível personagem, com seu cabelo vermelho e seu rosto colorido com tantas pintinhas. Lembrei-me de que na infância tive um amigo bem parecido, cujo apelido era “enferrujado”. Já era bullying, e ninguém sabia…

Enfim, entraram os homens e escancarei os ouvidos. Dizia o das pintinhas:

— Não sou mais criança, tenho vinte e três anos, não sei como é que vou começar…

— Ora, começa começando.

— Começando como?

— Ora, tem que descobrir o que mulher gosta de conversar.

Pronto! Já me assuntei. Na minha imaginação, até já sabia o assunto daquele papo: o primeiro encontro, o “das pintas”, menos experiente que o caubói, estava pedindo orientação sobre como conduzir a conversa num seu primeiro encontro.

— Mas, tem assunto só de mulher?

— Claro, cara, mulher gosta de conversar sobre comida, cinema, televisão…

— Ah, tá, mas eu não sei nada da vida desses artistas aí…

— Mas não é uma mulher qualquer…

— Bom, aí você tem razão.

O outro nada respondeu, apenas ficou olhando para o lado de fora do ônibus com o olhar vago…

Pobre rapaz, eu já estava cheia de solidariedade, quase me oferecendo para ajudar, preocupadíssima, porque, como eles entraram no ônibus depois de mim, talvez o tempo de chegada à estação final fosse insuficiente para o término da conversa e eu ficaria com aquele papo não terminado formigando no meu ouvido e na minha mente até que saísse uma história.

Passou um minuto, dois, três e, acho que no fim do quarto minuto o caubói disse, com a voz num tom mais baixo, parecendo que revelaria um segredo:

— De qualquer jeito, é tua mãe, cara, acho que não tem que ficar pensando muito no que dizer…

— É — respondeu o das pintinhas, com ar pensativo. — Pelo menos vou perguntar por quê.

— Por que o quê?

— Por que ela me abandonou.

Simples assim… numa manhã, dentro de um coletivo urbano, você descobre que existe um homem de vinte e três anos que vai encontrar sua mãe, ou talvez até conhecê-la, e não sabe como iniciar uma conversa com ela — ela, que iniciou a conversa dele com a vida…

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