Mais coisas entre o céu e a terra

daisy abr15Quando Carmen Sylvia mostrou-me a fotografia ao lado, fiquei sem palavras. A foto foi obtida na orla, quando ela estava a caminho de minha casa para conhecer Daniel, o mais novo habitante do meu coração.

Além da beleza da imagem e da competência da fotógrafa, havia o mistério. Foi quando me lembrei de “Hamlet”, Shakespeare: “Existem mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”.

Que raio de design seria aquele… e as nuvens, seriam as tais cumulus nimbus, terror da amiga comissária de voo, que as chamava de “algodão do diabo”?  Bom, naquele exato momento, nada a fazer além de elogiar e ficar olhando, encantada com a misteriosa beleza. Mais tarde a curiosidade não me deixaria dormir se, antes, eu não fosse direto e reto para pesquisar a COISA.

Foi quando eu li a notícia: morreu Bárbara Heliodora, uma das maiores experts em Shakespeare, e não é só brasileiro que pensa assim. Foi-se a Bárbara, aos noventa e um anos, trabalhando até o fim, segundo o que li nas notícias que anunciavam sua morte. Até o fim traduzindo, escrevendo, produzindo, uma lição de vida.

Lembrei-me então das lições no grupo de estudos de Shakespeare, do qual tive a honra de participar por um tempo, ali mesmo, na sua casa do Largo do Boticário, em noites iluminadas pela clareza de sua voz, que dava aula como se conversasse com eruditos do seu porte — o que me enchia de vergonha pela certeza do engano e me mostrava o paradoxo: a crítica teatral implacável, opinião temida por autores e atores, talvez  mais do que a própria estreia,  descia humildemente ao nível dos alunos sem demonstrar a menor impaciência, explicando uma, duas ou três vezes seu ponto de vista, pedindo e aceitando opiniões.

Bárbara era enorme. Na altura, na figura, e na paixão. Sim, porque tinha que haver uma paixão muito grande para ela ter compartilhado sua vida com Shakespeare tão intensamente. Ela discorria sobre a obra com detalhes de estudiosa apaixonada, de pesquisadora focada, num quase enlevo, uma espécie de adoração sem pieguice.

Lendo o seu necrológio, tudo fez sentido — a nuvem, a foto, a ocasião, a visita da amiga que veio à minha casa para celebrar a Vida. Claro! Shakespeare festejava a chegada de Bárbara com algo tão peculiar como ela própria… Por quê? Ora… Porque “existem mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”.

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