O entrudo

Que palavrinha mais estranha essa, “entrudo”. À primeira vista, seu significado parece ser o de alguém que vai entrando assim num lugar, sem mais nem menos, sem pedir licença, uma pessoa intrometida.

Nada disso, impressão errada. “Entrudo” era o nome dado pelos portugueses ao Carnaval.

Bom, como tantas coisas ruins (e tantas boas), o Carnaval foi trazido para o Brasil pelos portugueses lá pelo início dos anos 600, e se chamava entrudo por causa de uns bonecos de madeira que eram feitos para representar pessoas que o povo queria humilhar. Sim, porque o povão sempre nutriu um desejo secreto de humilhar os donos do poder, e aí estamos falando de tempos muito mais antigos, desde a Babilônia.

Havia dois ritos que, acredita-se, deram origem ao Carnaval. Um era a Saceia, festa em que escolhiam um prisioneiro, vestiam-no como rei e assim ficava ele durante três dias. Era o próprio… usava roupas de rei, comia comida de rei e, às vezes, até lhe permitiam dormir com a rainha, vejam só! Naquela época — que horror! — ser esposa de rei era mais como fazer parte do guarda-roupa do que propriamente fazer parte de seus relacionamentos. Pois bem, acontece que, depois que a farra dos três dias acabava, o prisioneiro-rei era chicoteado e enforcado. Fim de festa.

Mas não pensem que o rei se safava facilmente de outro sufoco. No início da primavera, no templo do deus Marduk — o deus protetor da Babilônia , era o rei que perdia seu status e poder e era surrado bem em frente à estátua de Marduk. Esse rito tinha como objetivo mostrar que, com todo o seu poder, o rei era submisso a Marduk. Depois de levar uns tapas, o soberano voltava novamente a mandar no pedaço.

Mais tarde, na Idade Média, uns rapazes se vestiam de mulher e saíam pelos campos por três dias, invadindo casas, comendo e bebendo e eventualmente dando uns “pegas” nas moças bonitas que encontravam. Outros se vestiam de mulher ou de nobre e saíam imitando procissões nas quais cantavam músicas obscenas ou de afronta à nobreza; o incenso queimado no evento era um fumo fedorento, resultante da maceração de sapatos velhos.

Nessa época, o carnaval era conhecido como Festa dos Loucos… Claro, só a loucos poderiam permitiam atos que desacatavam as leis e a moral da igreja.

Já o entrudo de Portugal era uma festa mais inocente, ou poderíamos dizer, mais “controlada”, pela simples razão que a Igreja, preocupada com a possibilidade de que o desrespeito à nobreza chegasse ao mundo divino, acabou com a farra e decretou, no século VIII, que as festas de Carnaval se dariam nos dias anteriores à quaresma, numa clara demonstração daquele provérbio… “Já que o estupro é inevitável, relaxa”.

Assim, no entrudo de Portugal a crítica era feita através de uns bonecos enormes feitos de madeira, como vemos ainda hoje na cidade de Olinda, e a diversão se dava através de brincadeiras e jogos. As brincadeiras eram guerra de ovos de água suja, frutas podres e até de urina, que aos poucos foram sendo substituídos por guerra de limão. A festa ficou mais cheirosinha, mas nunca perdeu seu aspecto crítico e pagão. E pelo mundo inteiro vemos as demonstrações pagãs do Carnaval, que ainda guardam certas características medievais, como os “banhos”, só que não mais fedorentos, mas de espuma ou de talco, as máscaras e as fantasias com as quais as pessoas se transformam no que quiserem, de rei a bandido.

E assim, vamos vivendo nosso Carnaval, louvando os que no Carnaval, e somente no Carnaval, se transformam em bandidos, apenas para fazer uma crítica aos verdadeiros bandidos. No caso do Brasil, alguns deles estão encerrados em prisões, mas sem a mais leve esperança de que, como nos tempos a.C., tudo não passe de uma brincadeira que vai acabar no terceiro dia. E salve a Lava-Jato.

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