O mundo é macho, mas a vida é fêmea

daisydez3Outro dia, estava eu comodamente sentada no BRT a caminho de meu Pilates, fora do horário do rush, porque eu me amo… E toca de ouvir conversas.

— Ah, mas ele é hooomem, né?

— Bom, isso é… se fosse uma mulher, ninguém ia criticar.

— Muito fraquinho pro meu gosto, eu gosto é de homem forte, aqueles que têm macheza mermo.

— Eu também, vê lá se eu ia me enrolar com um homem desse, chorão pra caramba.

— Você sabe que na festa de fim de ano no ano passado ele chorou também?

Responde a outra mulher, rindo, com sotaque mineiro:

— Capazzz.

— É, mas na hora de dar bronca na gente ele vira macho. Ontem esculachou o Claudinho, porque chegou cinco minutos atrasado.

— Mas… eu não disse? Vê se ele cria caso com a Dinorah, aquela barraqueira. Cria não, sô. Tem medo dela… fala manso e tudo.

— É. A Dinorah parece um homem mesmo, todo mundo tem medo dela, até eu.

Fiquei escutando, e o resto do papo foi nesse tom, características do macho, a força do macho, a inferioridade da mulher, coisas que mulher pode fazer e coisas que só homem pode fazer.

E fico eu pensando como até as próprias mulheres esperam do macho a macheza, e somente a macheza. E são as mulheres que criam os filhos… machos, que repassam a eles essa expectativa de macheza. TÓINNNN!

Isso aconteceu no início da semana passada e desde então fiquei matutando no assunto “macheza”. Até a língua portuguesa privilegia o macho. A ver: se você tem dois sujeitos, ou adjuntos, ou o que quer que seja em que um é feminino e outro masculino, quando se unem viram masculino, assim: se eu quero dizer “a moça e o rapaz vão ao cinema”, e quero substituir os dois sujeitos por um pronome, que pronome eu uso? E-L-E-S. Viva o idioma inglês, que inventou uma palavra e não privilegia nem um nem outro: substitui por THEY.

Continuo a pensar no assunto e ligo para uma pessoa conhecida, mulher, independente, esclarecida, e que não me consta ser machista, submissa a homem ou coisa que o valha. Ela não atende, mas sua voz na secretária me diz: “Não posso atendê- LO agora, por favor, ligue mais tarde”.

Quase deixei um recado perguntando: “‘LO’? Se apenas homens têm seu telefone, por que não me deu o outro, o feminino, ou o geral?” Mas eu jamais faria isso, não combina comigo.

Tudo bem, esqueci o assunto, quer dizer, esqueci e relembrei, porque, ligando para um escritório de contador em horário que verifiquei ser tardio, ouço novamente: “Não posso atendê-LO…”

O que é isso? Será que virei homem e não percebi? Uai. Será que todo mundo está partidário da inferioridade da mulher, como aquelas duas lá no BRT?

Fiquei tão encafifada com o assunto que quase liguei para minha amiga Dora Sá, pós-PHD em coisas de gênero, que tem um trabalho fantástico sobre o tema. Aí… tem sempre um aí. Passando na sexta-feira pela esquina de Maria Angélica com Visconde de Pirajá, vi aquilo, não acreditei, parei.

O que vi? Ah, você não vai acreditar e eu, escrevendo agora, lastimo não ter fotografado. Meninos e meninas, vi uma senhorinha, sentadinha num banco, com uma plaquinha onde estava escrito que fazia cafuné. De grátis.

Quase entrei na fila, que era bem grandinha…

E assim concluí minha reflexão sobre gênero: Será que um homem faria isto?

Não sei. O mundo é macho, mas a vida é fêmea.

 

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