Para onde foram as crianças?

adoletaDei-me ao trabalho de acompanhar uma tarde inteira os jogos de um menino de doze anos no computador. Fiquei completamente atônita.

Se alguém ainda não sabe, existem jogos em que as crianças (para variar, especialmente os meninos), se identificam com o herói, que é, nada mais nada menos, um bandido. Sim, porque o “herói” do tal joguinho escolhe o tipo de arma que vai usar em cada ocasião, rouba carros, mata, foge da polícia, arromba prédios e destrói carros para não ser pego. E me pergunto: há necessidade disto?

Encontrei algumas respostas: “As crianças vivem num mundo tão agressivo que precisam vivenciar a agressividade”, “Esse jogo repete a vida… é assim mesmo na vida real”, “Ah, é o jogo do momento, todo menino quer ter”.

Tempos atrás, conheci um outro jogo que estava “na onda”, um jogo em que as crianças construíam um mundo, com cidades, casas e tudo o que sua imaginação ousasse, a partir de blocos. Era bem interessante, nada agressivo, mas caiu em “desuso”.

Por quê? Ora, porque agora, o barato é destruir, atacar e fugir. No tal jogo de que falo agora e cujo nome sequer tenho vontade de dizer, ganha quem conseguir concluir a destruição e fugir da polícia. Quando o “herói” erra um tiro, perde um determinado número de pontos, e morre. O menino diz, empolgado: “Morri”. E volta ao início do jogo, agora com outros artifícios. Vocês precisam ver com que satisfação os meninos gritam, quando conseguem matar alguém: “MATEI!”

Bom, não sou propriamente uma saudosista, vivo o meu tempo, e sei que, dos super-heróis de antigamente, só tem vez hoje quem Hollywood escolhe para fazer um remake.

Sei que a indústria de jogos online fatura alguns bilhões por ano… Deve ser por isso, o $ manda. Ninguém quer saber se causa danos, se forma pessoas agressivas, dizem que seu papel não é o de educar. Mas ESTÃO educando, pior, de certa forma estão quase fazendo a apologia do crime, da vingança, da destruição.

Não sou bobinha para esperar que em pleno século XXI as crianças continuassem a brincar dos mesmos jogos de antigamente. Isso era para o tempo em que a tecnologia era jurássica, podem dizer alguns.

Pois bem, fiz a experiência. Num grupo de cinco crianças chegamos ao restaurante. Imediatamente todos sacaram seus celulares. Eu simplesmente perguntei por que razão estávamos ali, reunidos. As respostas foram idênticas: “Para almoçar com você, para nos ver, para estarmos juntos…”

Respondi: “Então, precisamos desligar nossos celulares, parar com os joguinhos, e nos olharmos, não acham?”

“Mas vamos fazer o quê?”, foi a resposta quase unânime.

“Vamos conversar, enquanto o almoço não é servido. Podemos até jogar, se for um jogo de que todos participem.”

Pois bem. Uma das crianças sugeriu a velha e conhecida Adoleta!

Por incrível que possa parecer, aquele grupo de crianças chamou atenção no restaurante. O comum é olharmos para as mesas e vermos “cada um no seu quadrado”. Nem o falar alto parecia incomodar os vizinhos de mesa, acho mesmo que as pessoas estavam encantadas com aquela “volta para o passado”.

Foi um almoço agradável, com vencidos e vencedores confraternizando na hora do sorvete.

Neste fim de semana eu vi, meninos, eu vi… as mesmas crianças que vivem coladas a seus celulares e seus joguinhos de guerra brincando de pique e de jogar bola.

E fiquei convencida de que as antigas brincadeiras ainda podem trazer de volta as nossas crianças. Basta que tenhamos tempo para nos dedicar a elas, criatividade e inteligência para usar os argumentos certos. Entretanto, é muito mais cômodo deixar o filho ligado no celular, ou no joguinho de computador.

É… Acho que as crianças foram para o lugar que a acomodação dos adultos as levaram.

 

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