Paz

daisynov18Não, não vou falar do terror. Custa-me acreditar que, em nome da fé e da defesa de uma crença religiosa, alguém destrua, mate outro alguém de quem não tem mágoa alguma, a quem sequer conhece. Sequer sabe se compartilha da mesma crença.

Vou falar de compaixão. À medida que o tempo deixa suas marcas, o coração se alarga e a compaixão se apropria de mais espaço. E vem a certeza de que, quanto mais se reverbera fatos ruins, mais eles proliferam. Portanto, Paris, receba a minha solidariedade piedosa, esperançosa, talvez ingênua.

Assim, quero lembrar de um encontro que tive alguns anos atrás.

Era um ser estranho aquele sentado ao lado, no banco do Jardim de Luxemburgo, onde eu lia, aproveitando o pouco sol naquele dia invernoso.

Não posso explicar por que, mas havia em sua presença um halo de luz, uma sombra de paz. Não resisti e desviei meu olhar e minha atenção para ele.

Não era gordo nem magro, não era bonito nem feio, não era alto nem baixo, não era branco, negro… eu poderia dizer que era tudo.

Nada falamos, apenas nos dirigimos olhares. E o seu olhar tinha uma força como nunca eu havia percebido em ocasião alguma, em ninguém mais.

Ele mirava o horizonte, mãos cruzadas sobre o peito, até que começou a resmungar baixinho: “Há que se espalhar a bondade, há que se espalhar a solidariedade, há que se identificar o que é crença e o que é manipulação”.

Bom, minha primeira atitude foi de preocupação, claro, poderia ser um louco, com aquele seu ar distante e, ao mesmo tempo, presente. Eu não sabia direito o que pensar.

Até que ele se virou para mim: “Como está você, querida?”

Mal pude articular um “Estou bem, obrigada e você?”

“Ocupado, muito ocupado.”

Bem que eu queria perguntar sobre essa sua “ocupação”, já que me parecia estar tão relaxado, ali, descansando. Mas não consegui dizer palavra.

Ele, parece, adivinhou meu pensamento: “Muito trabalho até que os homens percebam que, em cada um deles, existe uma centelha divina e que celebrar esta parte divina que existe em cada um é o mesmo que celebrar a Vida”.

Continuei muda, emocionada com a força daquela presença. Ele se levantou, fez um gesto de saudação e disse: “Gostei de estar com você. Meu nome é David Emir Ubaydah Seiji, mas geralmente me chamam pelas iniciais”.

Certamente na sexta-feira, dia 13 de novembro, o meu companheiro daquela tarde invernosa deveria estar ocupado em outro lugar.

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