Princesa

congado“Princesa é a mãe! Meu nome é Justina”, responde a rapariga, menina como as outras lá do sertão.

O povo a chamava de princesa desde a Festa do Divino, em que ela se enfeitou e foi lá uma figura qualquer que nem do nome se lembrava, mas se apresentou tão reluzente com as contas apanhadas no mato a enfeitar-lhe as mãos, os dedos e o cabelo, que o povo passou a lhe conceder nome de nobre.

Menina como as outras, com seus sonhos e manhas. Como as outras, em cores e desejos. Mas, diferente das outras, não tinha medos.

Talvez se assustasse com o barulho do trovão, que lhe lembrava a ira da patroa, a primeira, a que lhe ensinou que o trabalho é a mandinga melhor pra quem quer vencer o medo do trovão.

Naquela época, tinha nove anos, uma criança ainda. Lavava, passava e buscava água no ribeirão. Água pra clarear a roupa que depois engomava pra fazer o agrado aos patrões. Agradar a ela? Ninguém disso se lembrava, uma certeza que teve logo na tenra infância. Resolveu então, agradar a si mesma, pois sem agrados ficaria difícil não ter medo dos trovões que cortavam a madrugada escura e quente lá no sertão, quando fugia do quartinho que a patroa lhe designou, onde dormia no chão, num leito feito de lençóis velhos e nenhuma luz.

“Prefiro a luz da lua e a cama de grama seca, que seca é a grama no sertão”.

E, sob a luz da lua, danou a olhar as coisas com olhos de descobrir.

Com o tempo o seu olhar foi se pintando de verde. Pensou que de tanto olhar a mata encontraria nos seus tons, cores e sons os tons, cores e sons da própria vida.

Os banhos que tomava no ribeirão, mais que o corpo, lavavam a alma a cada dia; acreditava tanto no poder das águas que, quando chegava à margem para se enxugar e tomar o rumo do casebre em que à noite se protegia dos trovões, apresentava-se a si mesma:

“Justina, às suas ordens”, dizia, muito séria, mirando-se nas águas como se fosse uma pessoa novinha em folha, podendo perceber que a cada dia seu corpo ia tomando umas formas redondas e bonitas, formas que o sol irradiava para além da margem e que o bem-te-vi mostrava conhecer, no seu grito insolente e abusado, ao qual ela respondia: “Viu o quê, home? O que tu viu não mostra o que sou, seu safado!”

E ia ela estrada a fora, andando umas boas léguas, embolada na lama e no barro, conversando com os colibris e com os outros pássaros que atravessavam seu caminho. No dia seguinte, tudo outra vez, a mesma coisa sempre igual. E o povo do lugar a chamá-la de princesa.

No início ficava irritada, mas com o tempo passou a gostar da ideia e resolveu que princesa seria, porque sabia que só sendo alguma coisa bem importante teria um lugar de honra na procissão e nas festas da cidade.

Desde o dia em que assim resolveu, as festas da igreja e as congadas não tiveram mais outra princesa, que era ela a majestade daquele reinado. E era altiva aquela princesa, mais do que qualquer outra. Olhava os “súditos” com olhar longínquo, complacente, como se estivesse a lhes perdoar a falta de nobreza — um olhar nobre, verde e nobre, como só têm os seres da mata onde limpava seu olhar.

Orgulhosa, não dava conversa a qualquer. Manhosa, voltou a protestar quando lhe chamavam princesa, porque entendia que seu nome tinha mais nobreza que o simples título.

O que seria isto, pensava, perguntando ao jequitibá que diferença faria ser Justina ou Princesa, que a ela parecia ser um nome próprio, como Maria ou Esmeralda. Nome mais sem nome, pensava. Princesa não é nome de ninguém.

Passou o tempo e aquela história vingando a cada festa, mais e mais povo a chamá-la por um nome que não era o seu, que o seu era de coisa justa, como coisa de justiça, ou justa como roupa que cabe na gente sem apertar. Jusssstina… Prrrrrincesa! Ssssssssss… prrrrrrrrrrrrrr…

Ouviu um barulho diferente na vila e um trrrrrrrr de tambores, viu um macaco dos pequenos vestido de gente, uns home com cara de palhaço… e não é que era mesmo um palhaço?

Emoção desigual. Os barulhos do tambor não paravam de bater no seu coração, e nas águas do ribeirão, até ficaram mais ondeiras com seu coração rufando, rufando… Ao final do dia de trabalho tomou o banho mais caprichado para ver a função de noitinha.

Circo! Coisa nova para os olhos que só conheciam as cores da mata.

Tinha cores de toda cor, e ela então pensou ter visto o arco-íris no meio daquela gente que fazia umas danças esquisitas, virando os corpos numa quebradeira que não tinha visto antes e que fez com que sentisse um medo maior que o medo do trovão. Seus olhos não tinham mais o verde só. Eram, agora, multicores de beleza; tinham o brilho da alegria, mas também do medo. Depois do trovão, um outro medo, de que naquela quebradeira os corpos nunca mais voltassem a ser… Desse jeito mão vai virar perna e perna vai virar talo de home, e coração até vira tripa nessa tal de contorção.  

Os bichos dançavam feito gente, uns cachorrinhos endiabrados que olhavam na cara do povo e batiam palma com as patas… Vixe, que isso é coisa do Cão!  Os palhaços faziam cara de safadeza e diziam tanta coisa suja que depois que saiu do circo ela foi correndo lavar os olhos na mata e a orelha no ribeirão. Mas voltou; voltou todos os dias, porque o circo lá ficou por mais três.

Na segunda se esgueirou do trabalho e viu desmontarem a lona. Ficou ali, sentada no chão de barro que assim era o assento. Sentiu uma dor funda no peito quando pensou que seus olhos iam ver apenas verde novamente — triste ver só uma cor quando já se viu o arco-íris.

Não sentiu a chegada do palhaço, bem pertinho, a desmontar a lona suja e velha que ela olhava como se olha o céu em noite cheia de estrelas. Ele assobiou um silvo longo, de não ter fim. Ela entendeu.

Desta vez, nem parou no ribeirão; chegando na tapera juntou uns trapos e as roupas das festas, catou umas contas no caminho, foi se enfeitando até chegar de volta ao circo. O caboclo que apresentava os cachorros que dançavam olhou pra ela, sorriu e perguntou seu nome.

Ela fechou os olhos pra fora, os abriu pra dentro, viu novamente o arco-íris, e respondeu:  “Princesa!”

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