Realismo fantástico

daisy16marNessa altura da minha vida algumas coisas ainda me surpreendem.

Algumas, para o bem. Admirar a natureza em sua magnificência e generosidade, contemplar uma obra de arte que supera o tempo e rompe séculos emocionando, testemunhar a inocência das crianças, registrar a sabedoria popular.

Mas, tristemente, outras me surpreendem pelo conteúdo de maldade, de irresponsabilidade, de perversidade. É o caso da corrupção.

Não consigo acreditar que alguém que roube — e o termo, para mim, é este mesmo, ROUBE — não consigo acreditar que alguém que roube dinheiro público, ou que receba vantagens indevidas, não perceba ou entenda que está não apenas roubando do seu país e do povo, porque, no final das contas, está roubando de si mesmo.

Quando se combate a corrupção, não é a crítica pela crítica, não é apenas uma questão dialética. É uma questão REAL.

O dinheiro que alguém está usufruindo em forma de propina, vai faltar em algum tempo, em algum lugar. Uma obra pública superfaturada representa que foi alocado ali, em vez de uma certa quantia, três vezes tanto, às vezes mais.

Ora, esse mesmo dinheiro poderia ser usado em mais escolas, ou no aprimoramento da qualidade do ensino, para dar remuneração decente aos professores, para aparelhar melhor os hospitais no atendimento ao cidadão, evitando que pessoas até morram esperando um exame que poderia ter salvado sua vida. O dinheiro da propina poderia ser usado para dar mais conforto no transporte público, possibilitando ao cidadão, após um dia de trabalho, chegar em casa a tempo de conviver um pouco com sua família. Isso é novidade para alguém?

Será que essas pessoas não sentem minimamente algum remorso, será que não se constrangem ao ver as filas nos hospitais, as filas nas escolas por uma vaga, as escolas sem aula, porque os professores fazem greve por um salário digno?

Acho que não. Não devem perceber, ou são menos que gente, porque não conseguem se solidarizar com a dor das pessoas. Aí eu me pergunto: Como assim?

A única resposta que me vem à cabeça é que essas pessoas se acham superiores; o povo, para eles, é um ente à parte, uma classe à qual não julgam pertencer.

Claro, não precisam estar nas filas que citei acima. Vivem num mundo criado por elas para elas mesmas, um mundo em que o termômetro de humanidade é o tamanho do próprio poder, ou o peso do próprio bolso.

O verbo “corromper”, em sua origem latina, vem de corruptione, que significa “ato de quebrar em pedaços”, com significados também de “decomposição, depravação, deterioração, putrefação”.

Isso. PUTREFAÇÃO. Ou seja, há muito que fazer, há muito que limpar, há muito que mudar, porque esses fatos não são ficção. Ao contrário, são reais.

Muito REAIS. Um realismo fantástico.

Macondo[1] existe, não no sentido surreal, mas no sentido de existir o que nunca deveria ter existido. Espero que consigamos atravessar este “mar” de corrupção e, sim, construir novas casas espelhadas, para que a transparência denuncie os que porventura se arrependam de serem decentes e queiram voltar aos tempos idos. A estes, que mereçam séculos de solidão.

 

[1] Macondo é o nome da aldeia criada por Gabriel Garcia Marquez no livro Cem Anos de Solidão.

 

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