Tem roupa na corda

roupaQuando estou viajando e chego a algum lugar, chego humildemente. Não gosto de exagerar nos planos antecipados, detalhar dias, roteiros. Faço apenas um leve dever de casa, que me garanta contra a possibilidade de dormir em banco de praça…

Por isso, a postura de humildade diante da nova cidade, do povo novo. Porque sei que nada sei.

Como afirmaram Grinder e Bandler, “o mapa não é território”, e eu acredito nisso. Mais: eu GOSTO disso, e aplico a tese, embora seja óbvio que quando a criaram não tinham em mente o turismo. Baseavam-se na ideia de que a “mente, o corpo e a linguagem interagem para criar a percepção que cada indivíduo tem do mundo”.

Vou me permitir abusar um pouquinho, aplicando a tese da Programação Neurolinguística à experiência que estou tendo neste momento, em que viajo por lugares onde nunca estive, nem mesmo em pensamento.

E me surpreendo… na Croácia. Outra cultura, idioma absolutamente diferente, no qual não consigo entender palavra. E um povo tão parecido com o meu, na alegria e na atitude solar. Da semelhança entre os dois povos, a intimidade com o mar.

As praias croatas não permitem, como as nossas, caminhar na beira do mar. As crianças não podem brincar de fazer castelos de areia, porque não há areia. Para abraçar o mar, há que pisar-se em pedras que ferem os pés.

Daí eu penso que uma das razões que fortaleceram este povo croata, para que aprendesse a lutar por sua liberdade e sua identidade, pode ter sido esta: os croatas, desde crianças, devem ter ferido (e muito) seus pés. Também devem ter passado muito frio nos invernos. Nós, brasileiros, não tivemos este “treinamento”: temos sol a valer e pisamos em areia fofa.

Ainda vemos por aqui sinais da guerra que terminou formalmente em dezembro de 1995, com a assinatura do Tratado de Dayton, firmado em Paris. E embora a reconstrução tenha sido formidável para o espaço de tempo relativamente curto, ainda vemos buracos nas paredes, e me parece mesmo que os sinais foram deixados propositalmente, talvez para que o povo valorize sua liberdade.

Não se nota olhares assustados e bocas que se fecham à opinião, como vi em Cuba, por exemplo, e que poderia ser um ranço do tempo em que a Croácia pertencia à República Federal Socialista da Iugoslávia. E confirmo a minha opinião: no mapa não conheço o “território”, que só passo a conhecer no momento em que vejo sorrisos ou rostos assustados, bocas caladas, ou expressões espontâneas. Aí, sim, a paisagem adquire sentido, aí sim, posso dizer: “Conheço a Croácia”. Porque então não são meras linhas de um mapa qualquer, meu interesse é pelas PESSOAS, e estejam dirigindo o táxi em que circulo ou espetadas em monumentos grandiosos, só passam a ter sentido para mim quando saem do papel, adquirem vida através da história que me contam.

Vale a pena destacar: ao me deslocar para a cidade de Split, vindo das ilhas e voltando ao continente, recebi de minha amiga Patrícia um folder sobre a cidade, cheio de bom humor, que diz coisas muito interessantes, como:

“Que horas são? Ora, chegue tarde… Quando fazemos as coisas devagar, nossa compreensão do conceito de tempo fica diferente. Faça a CAKULA (se diz tchacula)” — Cakula sendo aquela conversinha que se joga fora nas filas, nos ônibus, da qual o brasileiro tanto gosta.

O panfleto recomenda ainda  que “não confunda a contemplação da natureza com preguiça, relaxeee. Enquanto o povo indiano consegue relaxar através da meditação e do jejum, nós conseguimos aqui com boa comida e bom humor”. Não parece coisa da Bahia?

É. Para mim, tudo a ver. Para eles, acabou o tempo do “tem roupa na corda”, lembram da expressão? Que dizíamos quando nos sentíamos censurados? Pois agora a roupa é roupa mesmo, e a corda é corda de verdade. Exatamente como em nosso país.

E, exatamente como em nosso país, duvido que toda essa Alegria que estou vendo agora estivesse acontecendo se tivessem perdido o líder que perdemos. Com qualquer divergência que se pudesse ter, é inevitável lamentar: um homem jovem, na plenitude de sua vida pessoal e política, morrendo de maneira tão estúpida. Acho que chorariam também.

 

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