Toca, Raul!

 

José Dirceu libertadoFico imaginando o que devem estar pensando os adolescentes de 12 ou 13 anos que não tenham no âmbito de sua família ou escola um fórum para discutir o que está acontecendo com a política do Brasil nos últimos tempos.

Para início de conversa, a internet está mostrando figuras públicas, que se tornaram conhecidas e admiradas como grandes cidadãos brasileiros, sendo chamadas hoje de ladrões. E os adolescentes assistem essas figuras, cinicamente, admitir que certos fatos são ilegais, mas que “todo mundo faz”.

Como assim… caixa 2 todo mundo faz? Eu não faço. E você, leitor, faz?

Será que não existem empresas dignas neste país, que não usam esse artifício desonesto?

Então, como é que todo mundo faz? A norma agora é “apologia do erro”? Se conheço pessoas que fazem alguma coisa ilegal, eu também posso fazer? Será que quem diz isto não tem vergonha quando pensa no que disse?

Os jovens ouvem mais alguns absurdos, e observam como a Justiça prende e solta, e solta e prende, como aconteceu ontem com o José Dirceu, seguindo uma lógica que acho difícil ser compreendida por adolescentes, e até pelo próprio povo.

Dizem os ministros do STU que prisão temporária não pode se eternizar. “Ah, é? Tá, e daí?” Leizinha boa essa… Então o corrupto que, preso, continuava recebendo propina, é liberado para aguardar julgamento em casa, podendo comer sossegado o seu caviarzinho.

Enquanto isso, mil e uns (uns, mesmo) presos aguardam julgamento na cadeia, quando poderiam aguardar em suas casas, em seus barracos. Inclusive mulheres que também são mães, como a senhora ex-primeira dama do Estado do Rio de Janeiro. São mães, mas aí existe uma diferença, grande diferença: essas mães, pobres mães que não dispõem de advogados famosos para defendê-las, deixam seus filhos sabem onde? Na RUA! Sabem com quem? À mercê do acaso!

Despertei para este tema na semana passada, quando um adolescente nessa faixa etária me fez algumas perguntas, eu respondi e ele comentou: “Essa história já começou errada desde que escolheram como símbolo da Justiça uma deusa com os olhos vendados”. Argumentei que a deusa Têmis tem os olhos vendados exatamente para não ver a quem está atendendo e atender a todos com a mesma isenção.

Ele me respondeu: “Quer dizer que pra ser justa a Justiça precisa vendar os olhos?”

Eu? Fiquei sem palavras, pois entendo perfeitamente a bagunça que deve estar instalada nas mentes desses adolescentes. Haja cabeça para entender tudo isso, e por esta razão me preocupo muito, muito mesmo, com o que essas pessoas adolescentes farão de seu futuro. A tecnologia apadrinha a alienação, com seus joguinhos que seduzem e fazem “esquecer” as dificuldades com as quais não estão sabendo lidar. O país e as instituições só fazem conturbar o jovem. Sobra a família. Portanto, torna-se absolutamente necessário que cada um de nós perceba a importância de se dar espaço para que esses jovens possam entender esse mar de corrupção e caos, para que possam organizar alguma visão para seu futuro.

Quando se assiste a um político que foi um líder celebrado como a esperança da classe trabalhadora afirmar que “Não tenho que provar minha inocência, eles é que têm que provar que sou culpado”…

Ah, aí eu me lembro dos irônicos versos do Raul Seixas: “Praquele que provar que eu estou mentindo, eu tiro o meu chapéu”.

É… Toca Raul.

Foto Sérgio Lima/ Folhapress.

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