Trabalho – A Beleza do Gesto

À primeira vista você pensa que é uma pintura.

Quando cai a ficha, fazer o quê?

Fotografar o “quadro” com a alma e desmanchar a pintura, saboreando as peças, uma uma, num prazer sensorial e etéreo ao mesmo tempo…

Conheci a história de Alain Passard e me impressionei a princípio com a beleza da apresentação de seus pratos. Depois, me encantei com a pessoa. Destemido, ousado não apenas nos pratos que cozinha, mas também na vida.

Lutou muito até conseguir o que é a glória de qualquer cozinheiro internacional – ostentar as três estrelas Michellin. Entretanto, depois de conseguir o prêmio , um dia teve um insight que não queria mais trabalhar com carne, com animais, nada sangrento em sua cozinha.

Ora, imaginem vocês. Um chef francês, cujo restaurante se distingue por exibir o Oscar da gastronomia mundial que são as três estrelas Michellin, de repente não oferecer em seus menus pratos franceses tradicionais de carne .

Num restaurante francês? Bom, foi um gesto muito ousado e inicialmente ele radicalizou, depois passou a servir frutos do mar.

Mas não é deste gesto que eu quero falar, e sim da verdadeira sinfonia que é observar este homem trabalhando. Suas mãos se movimentam com uma graça, um cuidado e um vigor que mobiliza e emociona a quem observa, porque o que se está vendo não é um Chef que mistura ingredientes ou que decora com maestria os seus pratos… É Arte o que está acontecendo ali.

É a sinfonia que fazem todos os que amam seu trabalho, maestros de uma orquestra que não se vê, porque o som não é de pianos nem de flautas, não há instrumentos outros que não o bater emocionado do coração, no ritmo pulsante das veias.

Já vi esta cena em outras pessoas que sentem prazer no que fazem , o que me cativou no caso de Alain Passard é que ele tem plena consciência disso, e diz “Eu gosto de ver mãos trabalharem na cozinha, sua beleza, sua agilidade e sua graça, gosto do modo como obedecem aos olhos e dão vida à receita, é o que faz a diferença”.

E, segundo ele, em seu restaurante não existe livro de receitas, a impermanência do menu é uma característica do lugar… “Si la nature a créé des saisons, c’est pour eviter la routine”, afirma , e está dizendo “Se a natureza criou estações, foi para evitar a rotina”.

Num mundo do trabalho em que cada vez mais normas e rotinas são necessárias para manter a qualidade do produto, quando alguém adota a impermanência como norma é quase assustador e raramente poderia acontecer num caso de sucesso, mas no restaurante LÁrpège de Passard, ao longo dos anos ele continua a merecer a avaliação *** Michellin.

Talento, ousadia, dedicação, essas as palavras chaves para o sucesso, e cada vez mais eu tenho certeza disto. As pessoas que conseguem ser admiradas pelo seu trabalho são as que descobriram em que lugar está o seu talento e depois treinaram, treinaram, treinaram e treinam até não poder mais, até alcançar o nível de excelência não que alguém decidiu, mas o que eles próprios determinaram para si.

A essas pessoas o mais importante não é o prêmio, mas a certeza de que estão dando o melhor de si e realizando-se no que fazem. O resto é mercado de trabalho, é dificuldade, é o elogio que virá ou não, mas Passard não pensou em nada disso quando resolveu que mudaria completamente as características do seu restaurante porque nada disso é maior do que a satisfação da realização pessoal e do sorriso que brota lá na nossa alma quando concluimos um trabalho bem feito.

Talvez você esteja pensando “A Daisy viaja quando diz isso”.

Pode ser, mas imagine você se cada um de nós conseguisse cumprir essas etapas :

  • descobrir o que realmente dá prazer no trabalho
  • esforçar-se para atingir o seu melhor desempenho possível
  • resignificar a rotina e persistir para manter o prazer no trabalho.

Impossível? Não sei … O L’Arpège mantem suas *** desde 1996.

Ah, e quem quiser assistir a sinfonia de Passard, é só ver na Netflix o programa Chef’s Table, nesta temporada. Vale a pena.

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