Eu só queria…

Estava eu na calçada de um shopping quando todas as pessoas viraram a cabeça na mesma direção. O lugar foi tomado pelo som de uma voz esganiçada, e os berros de outra voz, mais aguda ainda, mais assustadora ainda, estava parecendo até os grunhidos de um porco sendo sacrificado.  

Nossa, que drama… eram duas mulheres, meia idade, bonitas as duas, bem vestidas, uma com excesso de pintura e bijuterias – as pulseiras lhe tomavam o braço esquerdo quase até o cotovelo- a outra chamava menos atenção, mas era a que tinha a voz mais esganiçada. 

Interessante era a postura das duas, além dos gritos não manifestavam gesto algum de que estivessem em tal confronto, quase nem saiam do lugar, não balançavam o corpo, não mexiam as mãos, pareciam duas estátuas que brigavam através de um alto falante. Os gritos eram tão estridentes que não se podia entender de que falavam.

De repente, a “empulseirada” sacudiu o braço apontando para o lado… o barulho de chocalho quase impediu que se ouvisse, mas consegui perceber…  Olha ele aí! 

O homem desceu do taxi, olhou para as duas, e, ao sinal de que elas começariam a falar, ele simplesmente colocou dois dedos sobre os lábios, dizendo psiiii…. Pegou o braço da “empulseirada”, e levou-a para o taxi, fazendo sinal para que o motorista seguisse. Pegou a outra mulher pela mão, levou-a até outro taxi que estava no ponto em frente ao shopping, colocou-a dentro do taxi, tirou uma nota de cem reais do bolso, entregou à mulher e quando ela ia abrindo a boca ele novamente apenas repetiu o gestou: psiiii…

A mulher disse alguma coisa para o motorista, o carro seguiu e o homem, entrando no shopping, sentou-se num banco em frente a uma loja, sacou o celular, e dois minutos depois ria muito, mas silenciosamente, sem fazer escarcéu. Como se não tivesse notado a quase multidão que o observava, parecia que era o único ser existente no lugar.

Eu só queria entender.