O Mundo não tem Parede
A gente acha que casa é parede.
Só quando o chão de Katmandu se abriu em 2015 é que eles entenderam que casa é chão. Primeiro o chão tosse, depois ele grita. E quando o chão vai embora, o que fica na gente?
Não é só medo. É o chão, que a gente achou que era a coisa mais segura do mundo, virando líquido. As pessoas descrevem um silêncio absurdo depois do barulho, perda total de referência. O cérebro entra em modo de sobrevivência, muita gente não consegue chorar na hora, só correr. Correr, correr, sem saber para onde e nem praquê.
No Nepal em 2015 (7.8 graus, mais de 9 mil mortos), o que mais marcou o mundo foi isso: as pessoas perderam não só família e casa, mas os templos. A praça de Durbar, em Katmandu, que tinha 1000 anos, virou pó em 30 segundos. É como se a memória da cidade inteira se apagasse também, mas isto não aconteceu, e o sentimento de orfandade coletiva tornou a todos irmãos – os vizinhos dormiram todos juntos na rua por semanas, dividindo uma lona. Ninguém era estranho vivendo aquele trauma silencioso… meses depois, qualquer caminhão passando fazia barulho e fazia as pessoas correrem. Crianças não queriam mais entrar dentro de casa…
Entretanto, a resiliência budista desenterrou do inconsciente coletivo uma frase: “Ke garne?” — “O que fazer?” Essa frase não significa desistência, é sim, aceitação profunda do que estavam vivendo. Só quando se aceita que tudo está destruído é que se consegue forças para reconstruir. E foi o que fizeram: reconstruíram os templos com as próprias mãos, tijolo por tijolo.
Agora, em 2026, vão reconstruir novamente, porque aprenderam que o Mundo não tem parede. Que a Força Divina esteja com eles.


