Shambhala

O terrível acidente de ontem com o avião que transportava a equipe do Chapecó impactou o mundo. Mensagens solidárias de clubes de futebol, de associações e de governantes foram enviadas. Chapecó, cidade catarinense de pouco mais de 200 mil habitantes, ficou devastada pela tristeza. As famílias que perderam seus entes queridos, nem se fala.

Aí vamos nós à reflexão que, acho, devemos fazer sempre, especialmente quando um fato dessa natureza ocorre. Como se pode entender… um grupo de pessoas que lutam juntas a perseguir um sonho, e quando este se aproxima e chega bem perto essas vidas são encerradas tão bruscamente? Alguns diriam que foi “vontade divina”. Mas não eu.

Não sei, não costumo emitir opinião sobre o que não conheço. Um acontecimento desse porte é mais um daqueles que temos que “entubar” sem entender, aceitando a nossa pequenez humana diante dos mistérios da existência.

Mistérios acontecem por aí todos os dias, sabemos nós, e agora as investigações, as explicações, serão apenas uma formalidade, porque as vidas já se foram, levando com elas o sonho de uma cidade inteira — era o que eu pensava ontem à noite ao iniciar minha meditação, como faço diariamente. Mas, abrindo a minha programação do dia, descubro que hoje, dia 30 de novembro, é o Dia da Colheita Humana em Shambhala.

Shambhala em sânscrito quer dizer “um lugar de paz, de felicidade e de tranquilidade”. Dizem alguns textos tântricos que precederam o budismo — como, por exemplo, o que foi escrito por Zhang Zhung — que Shamballa existe: fica perto do deserto de Gobi e só pode ser habitada pelos”puros de coração e de alma”.

Na Tailândia existe, sim, uma cidade chamada Shambhala, cujos templos são belíssimas obras de arte, e hoje, certamente, estarão lotados pelos que seguem os ensinamentos tântricos que pregam ser a busca pela ascensão a grande busca do ser humano, o que aumenta a sua esfera de Luz e possibilita o acesso ao Poder. Claro que, ao se manifestarem assim, estão se referindo ao poder sobre os mistérios da própria vida, e sobre sua própria consciência.

Na verdade, o objetivo a ser alcançado deve ser o nível de consciência expandida, a consciência “limpa”, branca como a paz, a consciência brilhante da Luz que poderia iluminar o mundo e diminuir a injustiça e todos os efeitos resultantes da má utilização do poder.

É… 30 de novembro, Dia da Colheita Humana em Shambhala… e eu faço aqui um convite a vocês: que a busca pela tranquilidade e paz não seja só um discurso, mas que se incorpore às suas ações diárias, aos seus relacionamentos, à sua vida.

E que a Luz que será doada a Shambhala hoje por tantas pessoas possa iluminar Chapecó na busca de caminhos que diminuam o sofrimento dessas famílias que perderam seus entes queridos, e possa inspirar  toda uma cidade a descobrir novos sonhos.

#forçachape.

Mentira? Boato? Não. Pós-verdade.

daisy23novEm bom português, pior que é. A mentira, tratada como fato importante pela mídia, acaba se tornando pelo menos um boato bem-sucedido.

Ultimamente, temos assistido a carradas de mentiras ditas por caras e bocas tão compenetradas e “sinceras” que chegam a nos confundir. Vide a eleição de 2014, em que a mentira campeou: a candidata Dilma jurava de pés juntos que a economia brasileira estava sob controle, que o Brasil blá, blá, blá… e na primeira semana depois de eleita a presidente seguiu o conselho do Cazuza e mostrou a cara do verdadeiro Brasil brasileiro, não aquele criado pelo mago Santana.  Eleita, Dilma saiu mandando farpas para todo lado — aumento de luz, combustível, impostos —, e ainda assegurava que nada sabia sobre o escândalo da Petrobrás. Deve ter se esquecido de que foi Presidente do Conselho da empresa, Ministra de Minas e Energia… Mas não vou ficar aqui lembrando a sujeira do passado, vamos em frente, de volta para o presente.

Dois ex-governadores são presos, as acusações comprovadas, mas eles “não sabiam de nada”, coitadinhos. Só nós, povo, é que sabemos de tudo… Ô povinho sabido nós somos.

Nos Estados Unidos, graças à TV a cabo, testemunhamos que baixaria não é privilégio de campanhas presidenciais brasileiras. Mr. Trump e Mme. Clinton usaram e abusaram da citada baixaria, um dizendo que o outro mentia, e o outro dizendo que quem mentia era o “um”.

Mas… dirá você, “Até aí morreu Neves”, porque todo mundo já sacou que na política a verdade é mercadoria de quinta.

Respondo eu: pois é, mas na hora em que a Universidade de Oxford elege a post-truth [pós-verdade] como termo do ano, a coisa fica mais séria. A Universidade definiu a expressão como “termo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.

Mídias como Facebook, Twitter e WhatsApp patrocinam a proliferação de factoides porque geralmente chegam às pessoas através de alguém de sua confiança, o que dá legitimidade ao fato. Dizem mesmo que o Facebook utiliza algoritmos que propiciam ao usuário receber informações que corrobora seu ponto de vista, formando bolhas de boatos por aí afora. Acho bem maquiavélico isso, mas é o que dizem.

Quase me assusta a declaração do presidente da Oxford Dictionaries, Casper Grathwohl, ao Washington Post:  “Dado que o uso do termo [pós-verdade] não mostrou nenhum sinal de desaceleração, eu não ficaria surpreso se ‘pós-verdade’ se tornasse uma das palavras definidoras dos nossos tempos”.

E eu fico de cá pensando sobre a dor e a delícia do progresso e do desenvolvimento, quando me vem à lembrança a origem da ideia que está por trás dessa coisa toda: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.

Lembram-se o nome do autor da frase? Pois seria melhor esquecê-lo. Seu nome? Joseph Goebells, o “Santana” de Hitler.

Não precisaria dizer mais nada, mas eu digo: “Vade retro!”

#prontofalei.

Leonard Cohen, o rebelde

leonardQuando Bob Dylan recebeu o Nobel, outro compositor, Leonard Cohen, também tinha sido cotado para o prêmio.

Leonard Cohen, já escritor, aprendeu sozinho a tocar violão para dar maior musicalidade à sua poesia. Fez parte da geração beat, morou no famoso Chelsea Hotel, chamado nos anos 1960 de “ninho de amor e de drogas”. Foi vizinho de Dylan, Buckowiski, Janis Joplin, dentre outros. Imaginem um terraço, provavelmente à luz de velas, com esse povo cantando e dizendo poesias… Talvez por causa desses saraus ele tenha declarado que sua ida para os Estados Unidos o libertou do academicismo literário canadense.

Seu primeiro livro foi Let us Compare Mythologies. Procurou em toda a sua obra desmistificar símbolos e mitos. Não fez concessões, só trabalhou no que escolheu. Rebelde, recusou-se a receber prêmios… “Seria negar as mensagens dos meus poemas”.

Considerava fazer poesia uma necessidade visceral, básica. Sua opinião quando da premiação de Dylan, foi a seguinte: “É como dar um prêmio ao Everest por ser a montanha mais alta”.

Devastado pela visita que fez a campos de concentração, Cohen escreveu Flowers for Hitler, um clássico sobre as personas que detinham o poder na época. Detonou geral, nem a rainha escapou.

Retirou-se para um mosteiro durante cinco anos, saiu de lá monge. Foi o autor de “Hallelujah”, uma música que atravessou o tempo até hoje. Avesso a homenagens, certa vez pediu numa entrevista: “Parem de cantar ‘Hallelujah’, por favor”.

Bom, dizem por aí que não se deve conversar com os mortos, e Cohen morreu no dia 7 deste mês. É perigoso, dizem… O defunto pode virar “encosto”. Pois eu continuo a cantar “Hallelujah”, Leonard. Pode “encostar” em mim…

Seria uma honra, um prazer… e, quem sabe, um encosto proveitoso, porque escrever como você escrevia, meu amigo, é para poucos.

Hallelujah, hallelujah, hallelujah.

 

Sinal dos tempos

daisynov9
Charles Bukowski, brilhante escritor americano contemporâneo.

Tenho ido muito a festas de jovens ultimamente. E não posso deixar de comentar um fato que me deixa com a pulga atrás da orelha.

Por quê?

Ah, as festas são verdadeiros espetáculos, belíssimas, nas quais me impressiona a música, aquela que leva todos para a pista de dança, sabem como é?

As músicas funk — geralmente são funk, ritmo que adoro, e que, tal como o samba, não consigo ouvir sem balançar o corpo — exibem umas letras que, pelo amor de Deus, tempos atrás causariam verdadeiros escândalos. Palavreado chulo, sem sentido às vezes, em que órgãos sexuais, por exemplo, já não tem nome e sobrenome: os compositores vão no popular mesmo…  aliás, chamam isso de “funk ostentação”. Precisa dizer mais? Fico me perguntando onde os “compositores” foram encontrar tanta vulgaridade. Eu não saberia responder.

Pronto! Vulgaridade, esse é o meu tema hoje. Vamos lá: vulgar — banal, medíocre, ordinário, reles, rude, tosco, chulo.

A sexualidade está bastante relacionada à vulgaridade, e, na maioria das vezes, à mulher. Ninguém diz que um homem é vulgar quando tem um modo de vestir apelativo, usando peças que provoquem ou estimulem a libido. Mas a mulher…  basta usar um decote mais abusado que já é uma periguete.

Ah, mas vulgaridade não é somente isso. Ela se apresenta não só na forma de expressão, mas também no comportamento e na ação.  Diz o Google que também está associada a pensamentos fúteis ou maldosos, e que a ação de quem é vulgar se manifesta quando age com imoralidade ou banalidade. A ação de quem é vulgar é cheia de gestos e frases desnecessários, cujo objetivo é ser diferente, às vezes chocando o outro, para chamar atenção.

Pior, se justificam dizendo que é “espontaneidade”. Espontaneidade para atrair uma plateia não precisa de exageros, basta ter talento e boa argumentação.

Escritores que produzem personagens vulgares hoje têm uma variedade enorme de fontes de inspiração… Charles Bukowski , escritor americano, famoso por criar personagens que agem com obscenidade,  dizia: “Nunca forço a minha vulgaridade. Deixo que busque seus próprios meios de expressão”. Seria Bukowski um vulgar,  que fazia de sua obra uma válvula de escape?

Não sei, mas uma coisa é uma coisa… Romance é ficção, mas a banalidade na vida é algo a ser pensado.

Sigo pensando o porquê de as mulheres ganharem tão facilmente a pecha de vulgares por causa de um decote, de uma saia curta. Homens, ao que me lembre, só ouvi sendo chamado de vulgares quando são aqueles conquistadores baratos, tipo que valem 1,99…  aqueles que dizem que “comem todas”, que fazem das mulheres o que quiserem, que são os poderosos,  os mais sedutores. Mas parece que estão atualmente sendo louvados. E até eleitos presidentes… Não foi isso que o Trump confessou, num vídeo em que estando fora dos palanques, se mostrou um vulgar?

Seduzir é bacana no homem e nas mulheres é sinal de piriguetismo?

É… Sinal dos tempos. Os mesmos tempos de mil novecentos e antigamente… 

 

O sucesso é uma mola maluca

foto981107Estava eu calmamente degustando um bom queijo roquefort na preciosa companhia de amigos queridos, quando me lembrei da visita que fiz às cavernas de Roquefort-sur-Soulzon, uma pequena vila no sul da França. É bom acrescentar que no planalto de calcáreo de Causse Du Lazarc, onde a vila está situada, a erosão produziu uma montanha tão oca quanto o citado queijo.  Nas cavernas onde o queijo é produzido, a umidade média é de 90%, e o leite é lentamente amadurecido, resultando no delicioso roquefort. O mais interessante, segundo o guia da caverna, é que esta descoberta foi obtida graças à percepção do produtor, que notou que os queijos que ficavam posicionados na corrente de ar eram os que produziam uma espécie de mofo que dava personalidade ao queijo.  Ora, os queijos foram colocados lá por um erro ocasionado pela pressa e, sendo tão diferentes da produção, a princípio ele os descartou, mas num dia em que não tinha estoque disponível, lançou mão dos tais queijos, e foi aquele SUCESSO.

A lembrança me direcionou ao acaso. Quantas descobertas teriam sido feitas a partir de erros, ou de coincidências? Lá fui eu pesquisar, e constatei inúmeras “falhas” que, por assim dizer, deram certo.

Lá vão algumas: a batata chip, fruto da irreverência — num restaurante nos Estados Unidos, em 1853, o chefe George Grum, irritado com as reclamações de um cliente dizendo que “essas batatas estão grossas e sem sal”, cortou-as em tiras bem fininhas e as fritou até que ficassem crocantes, adicionando mais sal. SUCESSO!

Percy Spencer — quando trabalhava em uma empresa de radares em 1945, notou que a barra de chocolate do seu bolso tinha derretido. Dali para a criação de um forno de micro-ondas foi um passo. SUCESSO!

Alexander Fleming saiu de férias, em 1928, e se esqueceu de limpar e recolher algumas placas com cultura de micro-organismos no laboratório em que trabalhava no hospital St. Mary, em Londres. Voltando das férias notou que uma das culturas de estafilococos estava contaminada por uma espécie de bolor, mas tinha eliminado todas as bactérias ao redor. Do bolor resultou o fungo produtor da penicilina… e aí não foi apenas SUCESSO. Nem preciso lembrar a revolução que causou na medicina.

E a mola maluca, o brinquedo que encanta crianças de qualquer idade, foi inventada em 1943 pelo engenheiro naval Richard James, que derrubou acidentalmente uma mola mecânica e, surpreso, viu a mola sair pulando pela sala. Percebeu o potencial da coisa e investiu na elaboração do brinquedo.

Todos estes exemplos me fazem pensar que o sucesso é meio que uma mola maluca, ou malucos são os cérebros que acreditam que, de um simples acidente, ou erro, podem realizar projetos surpreendentes.

Esta é a maravilha das realizações humanas — pessoas persistentes, que ousam romper com paradigmas, podem chegar ao inimaginável, que, depois de inventado, é como o ovo de Colombo e faz alguns refletirem: “Como não pensei nisso?”

Nunca lhe aconteceu pensar assim?

Pois, para começar, abandone os padrões estabelecidos, e ouse — quem sabe, um dia, vendo o que você inventou, tantas outras pessoas vão dizer “Como eu não pensei nisso antes?”

Vivendo e aprendendo a jogar

daisy26octQuantas vezes nos lamentamos por coisas ou situações que dias, meses ou anos depois, percebemos como eram insignificantes diante de uma existência? Vejam bem, não estou dizendo diante da vida, mas da existência.

Sei que a doutrina espírita considera didaticamente a diferença entre uma e outra. Segundo os espíritas, teríamos varias existências, mas uma só vida. Cada existência teria como objetivo o aperfeiçoamento no plano material e espiritual, me parece que é isso.

Este conceito deve ter ficado de alguma forma guardadinho em algum canto da minha memória nas tantas peregrinações que fiz por religiões várias, quando ainda acreditava que as soluções estão em outro lugar e não em nós mesmos.

Enfim, eu quero mesmo é, diante dos horrores que vemos a toda hora nos jornais, na TV, nas ruas, sugerir que você, que lê minha crônica neste momento, pare por uns poucos minutinhos e tente lembrar-se dos momentos felizes que teve. Talvez até esteja vivendo um destes agora, mas pode ser que a contaminação por notícias ruins e com a desesperança esteja tão grande que não abra espaço para os momentos mágicos da vida.

E não, não me refiro aos momentos em que ganhou mais dinheiro, ou nos quais recebeu mais elogios, ou quando esteve naquele lugar que todo mundo quer conhecer… Nada disso. Estou falando é de um voo de pássaro que você podia ter visto esta manhã, da atenção que podia ter dado ao sorriso que uma criança te ofereceu, ou quem sabe, ligar para aquela pessoa amiga que vive demonstrando que amizades verdadeiras são eternas. Esses são momentos mágicos. Pode parecer ingenuidade, pieguice para alguns, mas garanto que descobrir momentos mágicos é um exercício mais reconfortante e maravilhoso do que caçar Pokemons. E olha que acho o Pokemon Go o máximo!

Estou falando é de perceber, de verdade, que os momentos felizes não estão apenas em fatos grandiosos. Estou dizendo é que, no Pokemon Vida, podemos fabricar alegria, satisfação, e assim obter a energia para usufruir da generosidade da vida.

É isso: aprender a jogar o Pokemon Vida é um exercício delicioso, que nos energiza e fortalece.

Tive um sansei de yoga que me deu uma tarefa: observar um amanhecer e anotar cada mudança que percebesse. Levei a sério o exercício. Afinal, o japa tinha quase oitenta anos, e corpo e mente de quarenta, ou trinta, sei lá. Aquele homem era uma força da natureza.

Então anotei. Primeiro, ainda meio escuro, o vento fraco fez um leve balanço nas árvores, a seguir, um voo de pássaro, depois, o Rei Sol deu seu primeiro brilho, e foi pouco a pouco assumindo o seu reinado naquela manhã. Levei minhas anotações para o instrutor, ele me olhou, e perguntou “O que aprendeu com isso?”

E agora repito o que disse ao Toshiro: aprendi que a vida não se faz de repente, que o sol não chega com estardalhaço, que a primeira luz do dia é fraquinha, mas o brilho vai aumentando à medida que as horas passam. Simples assim.

Simples?

Não, não é simples. Mas é verdadeiro, e traz bons resultados para quem quer aprender a jogar o Pokemon Vida.

 

As coisas estão mudando…

dillanGosto quando vejo o inusitado. Gosto mais quando vejo a ousadia. E gosto muito mais ainda quando a ousadia parte de pessoas ou instituições conservadoras.

Tivesse a Academia Sueca concedido o prêmio Nobel de Literatura a um certo Robert Allen Zimmerman, a opinião pública mundial ficaria pensando: Que Robert será esse? Especialmente no nosso Brasil, onde literatura e literatos quase sempre são festejados depois que viram celebridades, por outra razão que não a literária. Raríssimos são os escritores conhecidos apenas e somente por sua obra literária.

Só que o tal Robert Allen Zimmerman é nada mais nada menos do que… Bob Dylan!

Poderíamos dizer que a Academia Sueca “pegou pesado” quando justificou a escolha dizendo que Dylan criou um novo modo de expressão poética na tradição americana. Mais me pareceu um pedido envergonhado de desculpas ao mundo da literatura. Não sou expert no assunto “Literatura Americana”, mas acho bem difícil que ele tenha realmente criado um “novo modo de expressão”.

Agora, cá pra nós (e para os suecos), quem é ousado mesmo não precisa se justificar forçando a barra. Especialmente para um homem que já ganhou o Pulitzer… Aliás, Dylan é a primeira pessoa no mundo a ter cinco dos mais reconhecidos e cobiçados troféus no mundo das artes. Além do Pulitzer, tem um Oscar, um Globo de Ouro e doze Grammys. Um Nobel não ficará mal nessa coleção, não acham?

Analisando a justificativa me vem uma imagem à cabeça: uma velha senhora compra um traje moderninho, tipo um macaquinho curtinho, veste e quando se olha no espelho fica pensando, será que esta sou eu? E aí acrescenta: Mas na loja só tinha essa roupa no meu tamanho… E a gente tem que responder:

— É mesmo, minha senhora, ninguém vai estranhar não, o mundo está mudando. Pessoas como a senhora já podem se apresentar assim.

O próprio Dylan se antecipou quando afirmou numa de suas letras que “as coisas estão mudando”. Se considerarmos que ele escreveu isto em 1964, podemos admitir que a mudança existe, em compasso de tartaruga, mas existe.

Pois é… As coisas estão mudando, mas o poeta permanece para sempre jovem (1) e, apesar dos senhores da guerra (2), desejo que o vento leve suas lindas palavras (3) e que ele não precise tão cedo bater na porta do céu (4).[1]

 

[1] Referência às músicas de Dylan “Forever Young” (1), “Masters of War” (2), “Blowin’ in the Wind” (3) e “Knocking on Heaven’s Door” (4).

Escrita errada

daisyoct12Talvez o dia de hoje, 12 de outubro, tenha me influenciado quando escrevi essa crônica. Hoje é dia de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil (pobre santa, tinham que te encontrar no meio das águas para te dar essa tarefa complicada). Também é Dia das Crianças, e por que não brincar um pouco, preservar a criança que temos dentro de nós?

Então, vamos lá.

O ser humano confia demais nas palavras, entes tão pérfidos e volúveis que basta que se coloque um “não” à sua frente, ou um prefixo, um sufixo talvez, e muda tudo, completamente TUDO.

Senão, vejamos: quero, não quero; amor, desamor; mulher, mulherzinha. Ora, um simples sinalzinho e temos a negação ou um tom pejorativo.

Além disso, muita gente define algumas palavras de modo inapropriado, a meu ver. Por exemplo, a palavra “Poder” quase sempre aparece associada a alguma coisa que está além de si mesmo, algo externo, como status, dinheiro, prestígio. Só que, quando nos desconectamos de nossas possibilidades intrínsecas, nos vemos e ao outro tão distorcidos… Muito pior, nessas circunstâncias não se consegue perceber o universo de possibilidades que é a própria pessoa, que pode ser remédio de si mesma, desde que consiga se admitir como criatura originada em uma energia-mais- que-perfeita, desde que consiga acreditar que é uma das pequenas partículas da mesma substância cósmica que um dia se desprendeu, teimosamente, da Força Total e Maravilhosa.

Penso que vem daí o medo, o medo do reencontro com essa Força, o medo de nos vermos como entes divinos que, apesar de sua origem divina, ainda estão se “completando”. Se aceitássemos a nossa origem única, certamente iríamos ao encontro da fraternidade que poderia nos complementar. A angústia de nos sabermos tão divinos e tão incompletos nos leva a viver procurando razões para nossa existência, nos leva à crença de que só nos completamos no retorno à irmandade cósmica da qual nos desprendemos um dia.

O homem escreve errado, mas um dia há de perceber que é formado da essência que é o Amor, e que na velocidade do desprendimento inicial ficou com a face distorcida, como acontece aos paraquedistas no momento do salto.

No dia em que as pessoas enxergarem sua natureza divina, vão se olhar nos olhos e certamente verter lágrimas diante do brilho de suas luzes, como se fica ao olhar um diamante puro, multifacetado em todas as cores.

Nesse dia, paradoxalmente, verão a verdadeira face do Amor, porque as cores não a distorcem, apenas a transformam numa moldura luminosa.

Nesse dia cairão por terra os mitos, porque todos se saberão capazes de realizar as coisas que antes julgamos inacessíveis. No dia em que aceitarmos nossa origem divina seremos pessoas melhores, e passaremos a escrever corretamente a palavra “impossível”. Escreveremos   “in possível”, ou seja, todas as possibilidades se abrirão porque, na verdade, o grande Poder está dentro de cada um de nós, está no nosso desejo de nos humanizarmos a cada dia de nossos dias.

 

Não estamos sós

daisy5octEstou em Teresópolis, numa casa onde a paz circula como se fosse um ente como outro qualquer, uma flor, um animal, ou até uma “pessoa”. O lugar ideal para se olhar estrelas. E foi o que fiz.

Passada a chuva, me deito na rede da varanda e fico esperando. Parece que todas elas atendem ao meu chamado e chegam — brilhantes, solenes, brincalhonas, um festival de estrelas como eu jamais conseguiria ver no Rio de Janeiro, pois as pobrezinhas se escondem da poluição e fogem para lugares como este aqui.

Fico pensando: Qual o segredo que abrigam em seu tanto brilho?

Lembro-me do dia em que um amigo meu, físico, me garantiu que há vida nas estrelas e que muitas delas são monitoradas dia e noite por instituições de pesquisa. Não acreditei muito.

— Tem certeza?

Ele fez um gesto de cabeça afirmativo, e nada mais disse. No dia seguinte recebi um e-mail que ele me enviou com um estudo do físico italiano Enrico Fermi, que participou do desenvolvimento do primeiro reator nuclear, um expert em física quântica.

UAU! Quase perdi o fôlego, quando li o estudo que terminava assim: “Não temos tantas evidências no espaço de que existe vida como a compreendemos, ainda estamos no escuro com relação a isto, mas estima-se que existam bilhões de planetas na zona habitável das estrelas. Será que estamos realmente sozinhos? Ou existem outros por aí? É a maior pergunta para nós, cientistas”.

Claro que eu não podia ficar na curiosidade. Fui pesquisar, e descobri o Breakthrough Initiatives, um programa de exploração científica e tecnológica que fica esquadrinhando o cosmos, a pesquisar se existem outros mundos habitáveis na vizinhança da nossa galáxia. E as perguntas que são feitas são: “Estamos sozinhos?” “Poderemos pensar e agir juntos, como um só mundo no cosmos?”

E seguem: na correria do dia a dia, é fácil esquecer que vivemos num lugar de… vou citar porque a tradução não tem o mesmo gostinho: “astonishing grandeur and mistery” [surpreendente grandiosidade e mistério]. UAU outra vez.

Isso. Um lugar de tanta maravilha e ficamos nós, humanos, ajudando a destruir nosso planeta, a produzir lixo e mais lixo tóxico, sem lembrar que somos proprietários da Terra. E, como proprietários, deveríamos cuidar dela.

Mas… Diante dessa constatação, me deixem aproveitar o meu momento. Volto às minhas estrelas, porque se for pensar no nosso planeta… “vai dar ruim”.

Só não vale vocês escreverem para mim citando Bilac: “Ora, direi, ouvir estrelas… Certo perdeste o senso”.*

*poema completo, vide aqui

 

 

Ora (direis) ouvir estrelas!

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

por Olavo Bilac*

download*Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac foi um jornalista, contista, cronista e poeta brasileiro do período literário parnasiano, membro fundador da Academia Brasileira de Letras.