Partejando

daisyset28Andei parindo esses dias, e foi um parto cruel, difícil, demorado, cheio de dúvidas até que chegasse a certeza. E nasceu De nomes e sobre os nomes.

Depois que o livro acabou, fiquei, mais uma vez, com aquele sentimento estranho de ter a certeza de que estou, novamente e para sempre, sozinha.

Escrever me traz a sensação de ter companhia; meus personagens estão agora e vão estar sempre ao meu lado, às vezes gemendo baixinho como criança que quer colo, às vezes gritando tão alto que me ferem os ouvidos.

Esquisita sensação esta, a de saber que em algum lugar do meu tempo, da minha mente, da minha emoção, existem entes que estão à minha espera, aguardando que eu lhes estenda as mãos para chegarem-se a mim, e, num movimento generoso, permitirem que eu os crie, ou os recrie, que eu os faça bons, maus, bonitos, feios, esdrúxulos, engraçados, desgraçados, solitários, honestos, desonestos e tudo o mais que a minha bondade ou a minha crueldade possa fazer deles.

Eu os amo… Até os que ainda não chegaram, como acontece ao filho que está no ventre, mas que ainda não tomamos nos braços.

Eu os amo, porque revelam desejos, dúvidas, anseios, concordância ou discordância às coisas do mundo.

Eu os amo, porque me acompanham como o cão fiel faz a seu dono: estão sempre aqui, comigo, mesmo quando finjo que não os quero por perto.

Eu os amo, porque sabem me trazer alguma pouca alegria, em dias de tristeza.

Eu os amo, porque sempre estiveram comigo e, pacientemente, esperaram o momento em que pude, enfim, trazê-los à vida…

Quer dizer, eu penso que lhes dou a vida, quando eles fazem muito mais por mim: eles me doam a vida. A deles e a minha.

Significam hoje, para mim, a possibilidade de amar, de me expressar sinceramente, me oferecem a oportunidade de ser amorosa, ou alegre, ou brincalhona. Enfim: posso, com meus personagens, ser quem já fui um dia. Posso, com meus personagens, ser quem eu sou hoje. Posso, com meus personagens, ser quem eu gosto de ser.

Mundo, mundo, vasto mundo…

hiltrump2Sessenta e cinco milhões de pessoas por ano abandonam suas casas, partindo para o “tudo ou nada”, fugindo do terror, de regimes ditatoriais e de tiranos homicidas. Milhões morrem pelo caminho enquanto buscavam refazer a vida.

Os Estados Unidos, em sua campanha presidencial, apresentam um candidato que proclama a necessidade de construir muros para proteção. O terror escolhe situações em que possa atingir e matar o máximo de pessoas. Aqui, na nossa terra de Cabral, já não se sabe mais o que é mentira e o que é verdade, e a perplexidade cresce à medida que novas revelações da Lava-Jato acontecem. E eu me pergunto: o que está acontecendo com o mundo? Como as pessoas, os políticos em especial, têm a coragem e a desfaçatez de dizer o que dizem, de fazer o que fazem? Como têm coragem de mentir deslavadamente, de prometer absurdos, de negar realidades que estão aí expostas, para todo mundo ver?

E, o mais incrível, como pode existir quem apoie os corruptos, os mentirosos, os bravateiros? Como alguém, em sã consciência, pode acreditar que em vários governos, quando a corrupção se estendia aos muitos milhões de dólares, os principais governantes não sabiam de nada? Em nome de que Deus alguém mata e destrói, e ainda sai gritando o nome do “seu deus”? Como alguém pode apoiar um cidadão que vê na criação de muros a única solução para tantos problemas?

É… Voltamos à Idade Média. Na certa também vão construir fossos ao redor de seus castelos.

Estamos numa época em que “dizer qualquer coisa é melhor do que não dizer nada”. E o mundo assiste, perplexo, meio lobotomizado. Parece que as pessoas estão num processo absoluto de desacreditar. Palavras severas, histórias cruéis já são ouvidas apaticamente, e quem cria mais mídia acaba se locupletando, ganhando espaço, produzindo emoção. Estamos todos tão descrentes, não importa de que país sejamos, que uma bravata qualquer, ou uma sequência de lágrimas bem ensaiadas, consegue prosperar.

E o espanto imobiliza as pessoas. Mas existe um ponto comum entre os que se dizem “salvadores”: a incitação à violência. “Vamos pra rua, pra mostrar que temos força!”

O Mr. “de lá”, incita os que defendem a venda de armas para que “tomem providência”, porque a outra candidata anuncia que, eleita, vai mudar isso. Que “demonstração de força” é esperada pelos “de cá”? Quebrar agências bancárias, incendiar patrimônio público? Quem vai pagar pela reconstrução? E que “providências” estão sendo sugeridas no lado de lá?

Ah, mundo, mundo, vasto mundo…

Olha, poeta, o teu “vasto mundo” está cada vez menor. Não pequeno de tamanho, mas pequeno de ideias, pequeno de decência, tão pequeno de amor.

 

 

Informados ou “enformados?

boloBom, na semana das Olimpíadas o trânsito por aqui virou o próprio caos. Todo mundo reclamou, mas todo mundo acabou entendendo; afinal, estaríamos no olho do furacão do mundo, bilhões de pessoas estariam literalmente de olho no Rio de Janeiro.

Críticas do tipo “Olimpíadas num pais com tanta fome”, “Olimpíadas num estado falido” foram superadas. Parte da herança olímpica já pode ser constatada no transporte público, e na própria paisagem do eixo Recreio-Barra, que foi ligado a toda a cidade.

Mas o povo… Ah, povo, acostumado ao fato de que o poder público é o único ente responsável por tudo e por todos… o povo continua reclamando.

Observo que os que mais reclamam ou são pessoas desinformadas, ou “desenformadas”. As primeiras são aquelas que nunca ousaram entrar em transporte público. A maioria delas com quem conversei têm informações através de seus empregados, ou de empregados dos seus prédios; ficam olhando os ônibus do lado de fora e veem como andam cheios, e dizem que os ônibus não oferecem conforto, que isso e que aquilo. Pergunte-lhes se algum dia algum deles pensou em facilitar a vida de seus empregados e, por exemplo, lhes pagar um transporte de melhor qualidade, um “frescão”, por exemplo, aquele ônibus que tem ar condicionado e bancos confortáveis.

As segundas, as “desenformadas”, não conseguem sair da forma de seus engajamentos políticos e mantém a velha ladainha: “Ah, é do outro partido, então não presta”. E continuam na sua velha forma apertada, que não os deixa respirar novos ares, adquirir novos pensamentos. Não tenho procuração de político nenhum para defendê-lo, e muito menos do prefeito do Rio de Janeiro, conhecido por dizer tanta besteira, mas, por favor, vamos abrir o olho e ver o que está realmente acontecendo.

Uma dessas pessoas está tão “enformada” que outro dia, de dentro de sua forma, soltou essa: “Imagina prejudicar tanto o trânsito só por causa desses jogos… A Olimpíada pelo menos trouxe turistas para o Brasil… Mas esses jogos para… paralímpidos… para… para que, mesmo?”

Por sua dúvida quanto à palavra não a censuro, já vi muitas vezes a palavra escrita de outra forma, o próprio corretor do Word está aqui me sugerindo outra grafia. Mas, quanto aos conceitos da ilustre figura, nada a fazer a não ser sair de mansinho.

Ora, nesta altura do meu campeonato, tenho eu tempo a desperdiçar com gente de tal tipo? Se pelo menos eu tivesse esperança de que minhas palavras fossem abrir um buraquinho naquela forma patética, que a impede de ver o outro lado das coisas, talvez eu tentasse responder.

Talvez eu respondesse que os paralímpicos, os jogos da Paralimpíadas, estão num nível assombroso, super profissional, não vi ali nenhum coitadinho que ficou esperando o governo sair e resolver por ele. Claro que países como a Grã-Bretanha e Estados Unidos, que oferecem excelentes condições de treino, oferecem salário, e em alguns casos até moradia, se impõem entre os que conseguem mais medalhas.

Aqui, entre os atletas paralímpicos brasileiros, será que existe algum tipo de apoio além daquelas empresas que os patrocinam?

Não sei, acredito que não. Espero até que a estrutura construída para as Olimpíadas possa ser utilizada como unidades de treinamento para os atletas — olímpicos e paralimpicos.

E aqui faço um registro. Por mais que um governo ou patrocinador dê apoio a um atleta, quem vai à luta é ele mesmo, não fica naquela postura de esperar, esperar, esperar, como pregam as ideias dos “enformados”, na sua visão paternalista.

Faço o registro e louvo a atitude desses atletas, que alocam grande parte de cada um dos seus dias para treinar até alcançar seus objetivos. Não é o patrocinador que entra na arena, é o esforço, a garra do atleta, sua dedicação ao que se propõe fazer. Se o atleta for olhado com respeito, e parte deste respeito é uma remuneração para que possa ter dedicação exclusiva ao que faz, tende a alcançar melhores resultados.

Espero que fique a lição. E que os “enformados” consigam sair de sua forma, ou ao menos abrir um buraquinho para enxergar o outro lado das histórias.

Independência é morte

Desfile de 7 de setembro em São Paulo
Desfile de 7 de setembro em São Paulo

“Independência ou morte!” Com que entusiasmo, no ensino fundamental, eu, decoreba competente, repetia as palavras de D. Pedro! Bom, eu era ainda uma criança, e conceitos não me preocupavam. Para dizer a verdade, naquela época talvez nem me interessassem.

A frase, romântica, repetida ano após ano quando estudávamos o módulo “Independência do Brasil”, sinalizava que o nosso país tinha vencido a batalha do colonialismo e assumido seu próprio destino.

E aí… um bom tempo depois, penso no assunto e me pergunto: Por que a escola mente tanto? Por que romantizar o fato histórico, roubando da criança sua chance de se tornar um cidadão consciente, ciente dos fatos como realmente aconteceram?

Mas não… a História, quer dizer, os que escreveram a História, ou melhor dizendo, os que a ficcionaram, definiram que romantizá-la seria importante para a educação brasileira, importante para a cultura brasileira. E mentiram, fazendo do povo brasileiro (especialmente aqueles que estudaram História do Brasil) um grande desconhecedor de sua verdadeira história.

Por esse motivo, depois que comecei o meu próprio pensar, livre do domínio professoral, parei de dar trela a esses festejos.

Parada de Dia da Independência? Coisa mais cafona, coisa mais sem nexo num mundo em que a independência é cada vez mais desmoralizada.

Senão vejamos: independência de que tipo, cara pálida?

Econômica? Hahaha!

Política? Hahahahaha e mais hahahaha.

Hoje, independência é morte. Alianças é que garantem a estabilidade política e, por incrível que pareça, a soberania dos povos.

É tanto bloco… Mercosul, UE, BRICS, NAFTA, CEI, G-8, G-20 e quem mais quiser, mostram a nosostros que independência não é mais coisa que se festeje. Ao contrário, cada um é cada vez mais “dependente” do outro, nessa imensa troca de figurinhas e favores em que se tornaram as Relações Internacionais.

Porém… calma aí, isso não é o fim do mundo, é apenas o resultado da tal da globalização, que não por acaso tem este nome. Sim, somos todos um só. Somos todos seres de nacionalidade planetária, somos todos índios da mesma aldeia.

Mas parece muito difícil de entender isto. Acho que se faz necessário desenhar.

E botar nosso bloco na rua.

 

Por que será?

"Berceuse", de J. Brahms
“Berceuse”, de J. Brahms

A cena não poderia ser mais rotineira: almoço de família, num restaurante que não é o top de sofisticação nem o mais simples do pedaço — um businessman, três adolescentes e eu.

Como já sou conhecida por meus protestos quanto ao uso de celular nessas ocasiões, a princípio todos conseguiram se conter. Mas… como business is business, uma minirreunião de negócios apontou na esquina e os adolescentes, rápidos como um raio, sacaram seus apetrechos e começaram aquele digitar febril.

É… o homem sério naquele momento não contava dinheiro, mas continuava fazendo dinheiro. Eu, humildemente reconhecendo que trabalho não escolhe momento, calei minha humilde boquinha e passei a praticar um dos meus passatempos preferidos: observar.

Há quem veja nisso uma tendência a ser voyeur, mas prefiro não rotular. Se rotular for preciso, prefiro chamar de “ossos do ofício”. Você, caro leitor, conhece alguma escritora ou algum escritor que, de vez em quando, não se fecha em si mesmo e passa a observar (e imaginar) o seu entorno?

Eu não, definitivamente não conheço este ser. Escritores costumam exercitar sua emoção exatamente a partir do entorno, acho.

Coube-me a visão da mesa em frente, mais exatamente em frente e à direita, o que me dava a chance de visualizar todo o movimento das pessoas ali sentadas, sem que meus companheiros de mesa atrapalhassem absolutamente nada.

A minirreunião acabou; alguns momentos, depois começou outra, mas entre um pitaco e outro, ou em meio a risos ou a comentários irreverentes dos jovens, eu continuava dividida. “Por que será”, era a pergunta que eu me fazia. Logo eu, a primeira a chiar quando o povo esquece que está “em relacionamento” e entra naquele diálogo surdo, virtual, sem resposta, dos Facebooks e Instagrams da vida?

Enfim, o almoço acabou, e após os beijinhos e abraços de praxe, fomos embora, felizes pelo encontro. Mas a face da mulher da mesa vizinha não me saía da cabeça.

Era uma mulher chinesa, acho. Poderia talvez ser coreana, sempre confundo as características de pessoas dessas nacionalidades. Uma mulher chinesa, ou coreana, e velha. Muito velha. Tão velha que poderia ter uns duzentos anos. Enrugada, é verdade, mas que cara de paz!

Lembrei-me do que me dizia minha avó — minha velhinha era uma filósofa nata: “A fisionomia da pessoa no seu envelhecer vai adocicando porque ela entra em contato com os anjos”.

Ah! Entendi. Aí eu entendi tudinho. Saquei por que não conseguia tirar os olhos da cena, onde o encanto da velha enfeitava mais a mesa do que a bela toalha, do que os pratos cuidadosamente preparados: ela exalava generosidade, exalava a paz dos que, mesmo envelhecendo, estão fortemente conectados ao encanto da vida.

E resolvi escolher este assunto para a minha crônica desta quarta porque, em meio a tantas fotos ligadas à sessão de impeachment que corre o Brasil, uma imagem me impactou: justamente a foto do lugar onde estavam sentadas as pessoas do entourage da presidente acusada. Olhando bem aquelas faces, o que vi?

Desencanto, mágoa, desconexão. Rugas feias, porque não são rugas apenas do tempo, mas rugas de mágoa não resolvida.

Por que será? Por que será que resolvi escrever sobre isto nesta quarta?

Pois lhes digo, caros leitores: para louvar a conexão da velhinha com os anjos. Ela, certamente, já conseguiu exorcizar todos os seus demônios, para dar voz e vez aos anjos.

E dedico uma canção de ninar para ela, desejando que encontre seus anjos e, um dia, durma seus sonhos em paz.

Livro Saigon, uma resenha

Livro - SaigonLorena,

agradeço a sua atenção ao meu livro Saigon e louvo o seu esforço em divulgar literatura, que anda  mesmo precisando de boas iniciativas como a sua.

Parabéns. Obrigada.
Daisy Lucas

 

 

Blog da Lorena Caribé: http://blogaventuraliteraria.blogspot.com.br/2016/08/saigon-daisy-lucas.html

Cristo olímpico

cristo olimpicoA chuva que banhou o Rio ao final das olimpíadas tem um nome e tem uma razão. O nome? Saudade. A razão? Esperança.

O que me restaria fazer a não ser chorar?

A gente chora quando vê um povo sofrido, enganado, e que ainda não encontrou força suficiente para romper com esta saga e buscar o seu destino, seu glorioso destino. Mas a gente chora também de emoção.

Sei que uma Olimpíada não é salvação de pátria nenhuma, mas pode ser uma bela referência. Pode nos dar a dimensão da nossa capacidade, demonstrar o tamanho da nossa força e a beleza de nossas atitudes.

Garanto que a maioria dos que vieram para o Rio de Janeiro nessa competição saíram com uma ideia belíssima da Cidade Maravilhosa, impactados com a beleza da paisagem e com a sensibilidade e gentileza de seu povo.

Como em qualquer lugar do mundo, ocorreram percalços. Como em qualquer lugar do mundo, um ou outro saiu reclamando de alguma coisa. Só não puderam criticar a beleza que vejo aqui a meus pés. Só não puderam criticar o talento dos artistas que organizaram as cerimônias de abertura e de encerramento. Só não puderam diminuir a generosidade com que foram recebidos.

Um evento desses pode e deve sensibilizar o povo brasileiro, e se você pensa que estou exagerando, peço-lhe que não seja tão exigente. Peço-lhe que acredite, que acredite na grande capacidade deste povo, que só precisa ter consciência do seu poder, que só precisa saber que com suas escolhas pode vir a mudar seu destino.

O Rio foi, durante essas semanas, a capital do mundo. Infelizmente, o mesmo mundinho que assistiu ao evento em todas as horas, dia e noite, não vai dar a mesma atenção aos jogos que se seguirão, os paraolímpicos. Mas o Rio de Janeiro pode mostrar que não tem a mente reduzida, e que vai prestigiar da mesma forma a competição que se segue às olimpíadas.

Durante os jogos paraolímpicos é que o Rio de Janeiro pode mostrar ao mundo que tem pernas e fôlego suficientes para se tornar um grande marco no turismo mundial e realizar a sua vocação de Cidade Maravilhosa, que atrai e encanta a todos, sem distinção.

De minha parte, farei o possível para que isto aconteça. E você aí, vai fazer a sua parte?

Livro – Sobrenome? Mulher.

Livro - Sobrenome? Mulher.
Livro – Sobrenome? Mulher.

 

A maior alegria para uma escritora é ver sua obra lida. Por essa razão farei promoções de um ou dois dias para os livros que eu mesma coloco na Amazon. O conto “Sobrenome? Mulher.” vai inaugurar a série.

Sinopse: “Um conto que mostra uma história que poderia estar acontecendo em qualquer lugar do mundo. Não é a estória de uma mulher, é de todas elas.”

 

 
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A família olímpica

camisinha1Conhecer o dia a dia de uma Vila Olímpica deve ser bem interessante: um relacionamento entre iguais, atitude cordial, experiência enriquecedora e coisa e tal…  Você pode até achar inadequada a minha ingenuidade. Afinal, já passei do momento ingênuo, embora esteja agora vivendo intensamente todos os momentos olímpicos. Só que, voltando à ingenuidade, estava eu imaginando como deve ser incrível a convivência entre culturas tão diferentes, em situação tão inusitada como uma Olimpíada — rivais habitando o prédio ao lado, se esbarrando pelo caminho, sabendo que nos dias seguintes acabarão se encarando com olhar de fera, precisando se impor diante do outro, e aí, é claro, a intimidação rola mesmo, atletas iniciantes encontrando seus ídolos no corredor… Dona Ingenuidade até me soprou ao ouvido que, eventualmente, atletas rivais repartem mesas no refeitório ou restaurantes da Vila.

E a preparação física e mental dos candidatos a campeões, como é que fica na Vila?

Afinal, paguei para ver — não in loco, porque o acesso às instalações da Vila é mais proibido do que entrada de criança em filmes como aquele dos “Cinquenta Tons”, você sabe de que cor. Lá não fui, mas fui para a internet, que desmoralizou a história de que você precisa ir aos lugares para saber como são. Enfim… Tenho que confessar que minha cara caiu no chão.

O informativo do Terra cita matéria da Superinteressante, dizendo que o aquecimento de atletas em vilas olímpicas é o exercício mais antigo que se conhece:  sexo. A matéria diz que é tradição nas vilas olímpicas o clima de absoluta paquera e de livre pegação entre atletas durante os jogos. A matéria segue revelando que, principalmente ao fim das Olimpíadas — quando a maioria dos presentes já fez sua parte como atleta — a vila se transforma em uma festa sem fim. Para justificar, citam que em Sidney, no ano 2000, 70 mil camisinhas se esgotaram, e tiveram que encomendar mais 20 mil.

Ah, agora entendi por que o Comitê Olímpico distribuirá, segundo consta, 450 mil camisinhas durante os jogos. É, para atletas, tudo o que se refere ao seu corpo é artigo de primeira necessidade.

E, como em toda família, existem os xodós; as delegações cujos crachás exibem garfo e faca cruzados têm direito a um refeitório diferenciado. Hum… Entendi. O lado bom é que não vai haver desperdício, caso prefiram os sandubas e sorvetes: os alimentos que sobrarem serão distribuídos entre os moradores de rua… Santa Olimpíada!

Bom, satisfeita a minha curiosidade, dona Ingenuidade foi pro brejo, e voltei a pensar na relação entre olimpíada e família, e foi para o time do Bernardinho que voltei minha atenção.

Confesso que me incomodava (muito) o jeito autoritário (quase grosseiro) com que Bernardinho, técnico da seleção de vôlei masculino, tratava seus pupilos. Só que, no jogo da semana passada contra a França, fiquei intrigada com sua serenidade, e eu diria que ele parecia quase humilde. O time parecia não dar bola (sem trocadilho, por favor) para suas ordens, e fiquei bem confusa. Ao final do jogo, com uma suada vitória, Bernardinho se revelou numa entrevista. Suas palavras foram mais ou menos assim: “Temos que perceber que as gerações mudam, e se dermos ordens, eles viram pra gente e dizem ‘Eu é que sou bom nisso, e sei o que faço’”. UAU! Que mudança.

E fiquei eu de cá, pensando em como seria bom se todos os pais e mães conseguissem “liberar” seus filhos para a própria vida, sem terem a pretensão de funcionar como coaches da vida alheia. Agora, vou lhes dizer: ô coisa difícil encarar nossas “criaturas” e entregar-lhes a chave do próprio destino.

Difícil, mas absolutamente necessário. E como é bom quando se consegue.

publicado também aqui

A marca das mulheres

Alt-Rafaela-Silva-gana-la-primera-medalla-de-oro-para-Brasil-en-los-Juegos-de-Río-2016-EFE-EPAConfesso que eu não fazia muita fé no efeito desses Jogos Olímpicos do Rio. Não acreditei que a organização fosse satisfatória, que as obras não estariam terminadas, enfim, sucumbi a toda sorte de pessimismo que, aliás, eu via muitas pessoas manifestarem.

Que engano! Logo na abertura, que show! Inesquecível, lindo, completamente diferente de todos os que vi até agora: de sensibilidade única, beleza sem par, plasticamente irrepreensível, bom gosto, artisticamente Nota 10.

A cidade está energizada, bonita, as pessoas passam ao nosso lado sorrindo. Parece que se apropriaram de toda a energia olímpica.

Por outro lado, vemos se repetirem as mesmas lamúrias de sempre, dos que não conseguem mostrar, no seu desempenho, o porquê de tanta fama e prestígio. Sim, estou falando do nosso time de futebol. Hoje assisti, perplexa, ao treinador da equipe declarar que “Temos que assimilar as críticas e mudar”.

Mudar quando, cara pálida? Quando a competição acabar? Quanto tempo vai se passar para que percebam que, especialmente no esporte, não se pode ficar dormindo em cima dos louros, ainda mais na competição que nasceu na Grécia?

Mas o povo está vendo, está sacando. E homenageia a raça dos que reagem à dor e à dificuldade com coragem e brio. E aí, nós temos que destacar as mulheres.

Vejam só o nosso time de vôlei feminino, bicampeão olímpico e mostrando o porquê deste bicampeonato; as ginastas, a cada dia mostrando sua evolução, as moças do handebol, dando o troco ao time da Romênia, que desclassificou o time brasileiro na última olimpíada; o time de futebol feminino, com a melhor jogadora do mundo, Marta, se desfazendo em suor, mas mostrando toda a sua técnica e sua garra. Este time, ao contrário do time masculino, não treme diante do adversário, não fica destrambelhado e se esquece de mostrar o que sabe fazer, a tal ponto que se ouvia claramente a torcida pedir ao treinador no jogo do futebol masculino: “Põe a Marta, põe a Marta…” Foi incrível isso.

Outra que marcou nesta olimpíada, pela ousadia, foi uma esgrimista representando os Estados Unidos, Ibitihaj Muhammad, que se apresentou com o hijab, véu muçulmano que esconde os cabelos. Mulher valente essa… em tempos de terrorismo e preconceitos, apresentar-se deste modo!

Agora, quero mesmo destacar é a Rafaela Silva, menina da Cidade de Deus, aquele bairro pobre do rio, menina que foi desclassificada na Olimpíada de Londres e sofreu uma campanha acirrada, discriminatória, preconceituosa, com mensagens tão agressivas… Rafaela entrou em profunda depressão, mas deu a volta por cima e sua foto está aí na crônica, para quem quiser ver.

Isso aí, Rafaela, morde mesmo, morde esta medalha, porque no passado já te morderam por causa dela.