MEU CANTINHO
Meu cantinho não é grande. É exatamente do tamanho de um suspiro, com uma escrivaninha que já conhece o peso dos meus cotovelos quando estou pensando, uma cadeira que me acolhe e não reclama da minha inquietação, uma luz poderosa para iluminar minhas ideias. E cabe silêncio, esse é o luxo maior.
É aqui que eu trabalho. Mas não é só isso. É aqui que eu me desfaço do barulho da rua, do celular, do mundo querendo me vender pressa. De manhã, o cantinho é escritório. A xícara de café faz marca na escrivaninha e eu deixo, porque a marca é prova de que houve trabalho, que às vezes acorda madrugadas.
As ideias chegam ainda despenteadas, eu vou penteando uma a uma. De tarde, o escritório vira refúgio, eu não preciso produzir nada, só preciso estar. Olho a rua lá fora, e deixo o pensamento correr solto como quem solta pipa sem querer trazer de volta.
De noite, vira templo. Não tem religião, mas tem meditação.
Tem aquela hora em que eu apago a luz forte, deixo só o abajur, respiro fundo e lembro quem eu sou fora dos boletos, das crônicas e das metas. É o meu momento de voltar pra dentro de mim mesma.
Não tem nada de caro aqui, tem o essencial: um cheiro que eu gosto, o incenso que purifica, um computador que me escuta sem julgar, e as plantas, companheiras, que insistem em viver mesmo quando eu esqueço de regar.
E tem paz. Essa paz que não é ausência de barulho, é presença de mim.
Todo mundo deve ter um cantinho assim, não pra se esconder do mundo, mas pra se encontrar consigo mesmo e depois voltar para o mundo bem melhor.
Esse é o meu, sejam benvindos.


