DEMOCRATICAMENTE CRIATIVOS

Eu noto que cada vez mais vai acontecendo no nosso país um fenômeno bizarro na época das eleições: as pessoas não dizem com clareza em quem vão votar, ou pelo menos grande parte das pessoas evita dizer.

Percebo que muitas vezes elas falam como se estivessem traindo, é um falar sussurrado, medroso, como se tivessem a certeza de que a crítica violenta virá logo que o seu voto seja anunciado. Por outro lado, há os que declaram voto com ferocidade, em tom enraivecido.

As pessoas perderam a capacidade de lidar com o oposto, com a divergência… E, ironia das ironias, exatamente numa época em que se canta em prosa e verso o apoio à diversidade. Que diversidade é essa? Diversidade em que todo mundo tem que pensar igual? Que diversidade é essa em que a outra pessoa tem que acreditar nas minhas crenças, tem que compartilhar comigo os meus ideais, tem que copiar o meu voto?

Só se lembram do aspecto sociopolítico da palavra diversidade, mas esqueceram de consultar o dicionário. Se forem pesquisar vão encontrar sabe o quê? Diversidade significa a variedade, a pluralidade, a multiplicidade de características, experiências e diferenças entre a pessoas Isto é diversidade no amplo sentido.

Pois é….todo mundo vota na urna oficial, mas existe uma eleição paralela acontecendo em segredo no grupo da família, na fila do pão, na fila do banco – o voto que as pessoas não declaram, o candidato que as pessoas escondem. Como se o voto fosse quase um caso amoroso clandestino…

Mas o hilário é que todo mundo se diz democrata, todos eles, os que não conseguem ouvir opinião diferente da sua.

Estamos inventando um novo conceito para a democracia – a democracia dos que se incomodam com o voto diferente do seu.

Somos muito criativos mesmo.