Estelionato de Si Mesmo

Vivemos a era da vigarice institucionalizada.

Todo dia o celular vibra com um novo golpe, e a gente ri, ou fica irritado, bloqueia, se acha esperto demais pra cair. “Só pega trouxa”, a gente diz, com o peito estufado de vacina social.

Só que tem um alguém que ninguém bloqueia: o que mora dentro da nossa cabeça, esse aí não precisa de link falso nem de voz clonada. Ele usa seu próprio cansaço, sua própria covardia, sua vontade de acreditar em versão bonita da mentira. E você cai. Todo santo dia. Assina o recibo do golpe com seu silêncio, com sua procrastinação, com o “depois eu vejo isso” que nunca chega. O estelionato de si mesmo é o mais lucrativo de todos, porque a vítima paga, o criminoso lucra, e os dois têm o mesmo rosto no espelho.

Como assim? Vou te dizer: é vender seu tempo por migalha e chamar de “estabilidade”. É engolir desaforo e chamar de “maturidade”. É ver a relação apodrecer e chamar de “fase”. É enterrar talento vivo e chamar de “responsabilidade”, é colar um sorriso no rosto para ficar instagramável. É… o estelionato de si mesmo não usa roupa, ele veste discurso pronto. Ele te convence que adiar o sonho é planejamento. Que aceitar menos é humildade. Que se anular é amor. E o pior: ele te faz cúmplice. Porque pra esse golpe funcionar, você precisa assinar embaixo. Precisa repetir a mentira até ela ganhar gosto de verdade. Enquanto isso, o vigarista de fora leva seu dinheiro, mas o “de dentro” leva sua vida. E você ainda tem a audácia de dizer que tá vacinado contra golpe.

A polícia não vai te salvar. O banco não vai estornar.

O único delegado desse crime é você.

E a sentença já tá escrita: ou você prende o vigarista, ou passa a vida inteira preso com ele.