DELAÇÃO PREMIADA

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Confesso que me incomoda, e muito, esta expressão – delação premiada.

Somos educados para considerar qualquer  delator como um ser  abjeto, vil,  um traidor, enfim. Delação é a palavra da vez, no grave momento que vivemos em nosso país. E, por estar lendo em tudo quanto é matéria o mesmo assunto, fui pesquisar.

Mas que não se preocupe a minha meia dúzia de  queridos leitores,  não vou pisar em terreno que não é o meu. Minha pesquisa foi histórica e etimológica, porque nesse campo eu piso até de pés descalços, é meu quintal.

Vamos lá! Fala, Aurélio!

E ele responde: – Denunciar é ação de delatar, de denunciar crime cometido por alguém ou por si mesmo. Origem etimológica – vem do latim delatio, onis.

Não satisfeita prossigo com outras fontes, Internet, e também faço um esforço de  memória para relembrar meus  estudos de latim. A palavra delator vem de delatus, particípio passado de deferre , palavra formada pelo prefixo DE, mais o verbo FERRE. Parece trocadilho, mas juro que não é. Inclusive este verbo passou para o português como deferir, fazer uma deferência, mas dentre os seus significados latinos estavam “levar de um lugar a outro, derrubar, desviar de rumo e denunciar”.

Pois bem, já andamos um pouco, mas vamos prosseguir, que ainda tem muito chão…

Saindo um pouco da etimologia, saio um pouco do meu quintal e pego o beco da  História.

Aí a coisa pega. Tenho que começar por aquele cujo nome virou sinônimo da palavra delator. Ele mesmo, Judas que, segundo a Bíblia,por “trinta dinheiros” traiu Jesus Cristo.  Trinta moedas de prata? TRAIDOR! E ainda teve aquela história de que o beijo foi o sinal para mostrar quem era aos guardas. É… Nem sempre  “ a Kiss is just a kiss”.

Depois, dou um pulinho até a Roma Antiga e dou de cara com Brutus! Traidorzinho sem escrúpulo, um dos preferidos de Julio Cesar e um dos que conspiraram para sua morte. TRAIDOR! Não foi à toa que Dante Alighieri, na Divina Comédia  o colocou no Inferno.

Na História recente ainda poderia citar Himmler, que, dizem, traiu Hitler. Mas vocês acham que vou perder meu precioso tempinho com nazistas? No way!

E na História do Brasil? Os delatores Calabar, Joaquim Silvério dos Reis… TRAIDORES!

Devo acrescentar que não sou advogada. Sou apenas uma cidadã que se sente responsável pelo que acontece em seu país, especialmente numa situação em que ajudei a eleger uma turma que – estou vendo agora – está mostrando a cara e quem são seus “amigos de fé”, gente que entra em prisão fazendo o V da vitória, outros sorrindo desafiadoramente, como se estivessem entrando como vencedores  numa competição e não numa delegacia.

Agora, mostro o meu ponto de discussão interna, que compartilho com vocês e gostaria mesmo de saber a sua opinião.

O termo DELAÇÃO soa no inconsciente coletivo como traição, malfeito (para aproveitar a palavra da moda).

Seria por essa razão (não posso afirmar, mas tomo a ousadia de fazer esta ilação), que nos Estados Unidos esta ferramenta jurídica seja denominada “plea bargaining” traduzindo “ apelo barganhado , ou barganhando um apelo”, qualquer coisa assim?

E por que no Direito anglosaxão, delação é chamada de “witness crown” – traduzindo ‘testemunha da Coroa”.

Na Itália, durante a Mani Pulite (Operação Mãos Limpas), estabeleceram até três tipos de delação : 1- o pentiti – caracterizando o arrependido; 2- o dissociado e 3- o colaborador.

Como vemos, nos casos acima, o âmago da questão é a colaboração. Aqui, foca-se numa palavra que denota traição. Claro que em sua essência é uma traição, mas em seu objetivo é uma colaboração a que se faça a Justiça, a que se esclareçam fatos que indicam haver delitos escondidos.

Por essa razão, e para dar uma conotação de ferramenta jurídica eficaz e justa, eu fiquei pensando – bem que a expressão poderia ser outra, como, por exemplo, “confissão estendida”, já que a pessoa se confessa participante do delito e estende sua confissão, ampliando as informações à Justiça e contribuindo para que se estabeleça a VERDADE.

Aquela venda nos olhos de Temis, a deusa da Justiça, simboliza que a Justiça não vê diferença entre as partes envolvidas, as vê com igualdade. Entretanto, quando usamos o termo Delação, a igualdade já foi para o brejo, imediatamente aparece em nosso inconsciente a palavra traição.

Isso o que eu quero hoje compartilhar com vocês. E se derem sua opinião ficarei muito feliz, porque penso que nós que escrevemos na Internet, escritores ou não, temos à disposição o maior meio de participação. Uma forma de fazer a diferença.

2 comentários

  • Fernando disse:

    Estimada Daisy, permita-me pensar, que entre eles não há tanto a ideia de traição, mas de salvar a “prórpia pele”. não há uma “colaboração”, porque não é um “labor”. O labor foi o desvio de dinheiro, a corrupção em si. O “Co-laborador” é o que trabalhou em conjunto, mas para se aproveitar do desvio feito e com a delação, ele se aproveita para diminuir seu quinhão de culpa, não por uma arrependimento eficaz.

    • DAISY LUCAS disse:

      Concordo, Fernando, em parte. O meu ponto não foi o da veracidade dos depoimentos, o meu ponto é que a palavra, no caso desta “colaboração”, diminui a importância de sabermos a verdade dos fatos. Cabe à Justiça PROVAR, estabelecendo a correspondência entre os fatos delatados, o movimento das contas dos envolvidos, e a sua atitude diante dos fatos delatados. O Brasil não pode ficar à mercê de pessoas que debocham da Justiça, mesmo confessando seus ‘malfeitos’, e entram sorrindo numa delegacia de polícia. Muito obrigada por emitir sua opinião, não queremos ser “vaquinhas de presépio” aceitando tudo o que ouvimos, queremos, ao contrário, ouvir a divergência, desde que pautadas em consciência, e não em interesses pessoais ou fanatismos políticos. Abs

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