Estelionato de si mesmo

dljul13Outro dia, num papo de amigos (ah, como gostam de filosofar esses meus amigos) conversávamos sobre liberdade.

Era um grupo bem caótico: uns eram seres pensantes (aqueles que pensam, pensam, mas não fazem); outros, seres não pensantes (os que fazem e só pensam depois); e havia outros, mais jovens, que ainda não se definiram. Por último, os “misturados”, aqueles que pensam e fazem, não necessariamente nesta ordem, porque frequentemente agem sem pensar.

A discussão, entre uma taça de vinho e outra, varou a madrugada, e quanto mais se discutia, menos nos entendíamos. Afinal, voltamos cada um para sua casa sem ter atingido consenso. Eu, de minha parte, fiquei com o pensamento em chamas.

Liberdade… Ô palavrinha mais difícil de entender na prática. Diz o dicionário que liberdade é ousadia, franqueza, nível de independência absoluto e legal de um individuo, característica de quem não se submete.

Ah, tá. Fico eu lembrando fatos e eventos que sinalizaram liberdade para a minha geração, e me detenho em apenas quatro: pílula anticoncepcional, minissaia, mais tarde o celular, a internet. Isso tudo era absurdamente impensável para a geração dos meus pais.

E o que aconteceu com esses símbolos? Vamos ver: a pílula parece que ainda vigora para quem tem um pouquinho de inteligência e de amor à própria saúde. Minissaia? Já era! Depois dela, já vieram o shortinho, as transparências, o tudo-de-fora… Celular? Quem não tem? Internet? Companhia inseparável para muitos.

— Como, você não tem celular? — eu mesma me surpreendo quando encontro alguém que não esquenta seu ouvido com um celular.

— Não tem Facebook? Hummm…

Enfim, o que seria libertador de início, passou a ser símbolo não de liberdade, mas de status, ou de modernidade. E aí, meus amigos, deixou de ser libertador para escravizar. Tudo bem que a praticidade de um celular é óbvia, mas por que cargas d’água uma pessoa que não tem celular é antiquada, se isso for sua livre escolha?

E por que alguém neste mundo tem que ficar divulgando sua vida nas redes sociais?

Mas o preconceito, sabemos nós, acontece. Já ouvi alguém dizer que “pessoas que não usam as redes sociais não têm uma vida interessante, por isso se escondem”.

E, para mim, aí está o problema. No momento em que os grupos sociais atribuem valor a alguma coisa, todos têm que “embarcar” naquela ideia, ou serão considerados antiquados.

As pessoas, cada vez mais, desfraldam bandeiras libertárias. Só que, em lugar de procurarem captar seu verdadeiro desejo, seu verdadeiro eu, procuram, isso sim, se enquadrar nas definições vigentes. E cada um, do mais moço ao mais velho, procura “parecer” livre quando se afilia ao que está estabelecido e aceito.

Gente gorda? “Puxa, faz uma bariátrica”.

Rugas? “Ora, faz um botox”.

E o mais interessante é que, na maior parte das vezes, as sugestões não são feitas a partir do critério “saúde”, mas do critério “estética”.

É inegável que todo ser humano busca a aceitação, o reconhecimento. Tudo bem! Mas por que as pessoas imaginam que serão mais bem aceitas e reconhecidas se estiverem dentro do padrão de beleza vigente para aquele grupo social?

Em nome desta aceitação, se impõem autolimitações: o que dizer, como dizer, o que ter, o que não ter. E o SER? Vai pro espaço.

Mas, se pensarmos direitinho, sabemos que cada um de nós é um ser absolutamente inédito se comparado a outro, basta ver que na multidão de seres que povoam nosso planeta, as impressões digitais nunca são iguais.

Muitos indivíduos (muitos, mesmo) esquecem até o significado de serem indivíduos, e aderem à “boiada”, praticando o estelionato de si mesmos. Nesses casos, como diz a música, “liberdade virou prisão”.

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