Não, não é Primeiro de Abril

daisyabr1Dois + dois = ???

Até ontem, 31 de março de 2015, pensei que a resposta fosse 4…

Eu sabia que sabia fazer essa conta. Hoje, entretanto, assistindo o depoimento do Sr. Glauco Legatti, fiquei com sérias dúvidas.

Quer saber por quê?  Ah, então com certeza você não assistiu ao citado depoimento, porque se o tivesse feito, provavelmente estaria no mesmo ponto que eu.

Vejamos: diz o doutor que não recebeu propina da Construtora Queiroz Galvão quando era gerente-geral da Refinaria Abreu e Lima, crime de que foi acusado por um executivo da construtora.

E acrescentou: “Não tem nada disso, não recebi nada do senhor Shinko, sou da engenharia, ganhava muito mais do que isso, não tem sentido esse valor”.

Mas, gente, se um gerente-geral da Petrobras ou de qualquer outra empresa brasileira (mesmo multinacional) que esteja operando no Brasil considera R$ 400 mil um valor “sem sentido porque ganho muito mais do isso como engenheiro”, faço duas leituras:

1- Está explicado o rombo monstruoso revelado na Operação Lava-Jato: se essa grana toda é considerada “sem sentido” como valor de propina para um simples gerente-geral, imagina qual seria o valor que “faz sentido” para diretores e o resto da patota que se envolveu na negociata;

2- Agora, se os salários dos engenheiros da Petrobras são tão altos que tornam inexpressiva a quantia de R$ 400 mil, TÁ EXPLICADO POR QUE PAGAMOS COMBUSTÍVEL TÃO CARO!

 

Olhem só: somos o décimo terceiro produtor de petróleo no mundo, e a nossa gasolina é uma das mais caras. Apenas Paquistão, Índia, Nigéria, Indonésia, Bulgária, Turquia, Tailândia, Romênia, África do Sul, China, Argentina, Croácia, Hungria e Colômbia têm preço mais alto. Detalhe: destes países, apenas Nigéria tem produção significativa de petróleo.

O depoimento foi prosseguindo (acho que só para aumentar o meu espanto e acelerar minha indignação), e o ex-“gerente-geral”, começou a falar sobre custos.

Quando, em 2005, a obra da refinaria foi anunciada em meio a festa e rojões, disseram que custaria R$ 2,5 bilhões… Pois, nove anos depois, o custo deu um salto tríplice carpado, daqueles bonitos, que dão medalha de ouro a qualquer atleta. Os atletas da corrupção mandaram ver, e o custo foi a R$ 18 bilhõezinhos. Apenas.

Mesmo assim, o depoente disse: “Não houve superfaturamento. Houve um acréscimo [nos contratos], isso não é superfaturamento. São custos reais incorridos na obra, não tem um centavo pago que não tenha um serviço em contrapartida”.

Puxa… vai errar o cálculo assim na … Cochinchina.  E olhem que são engenheiros selecionadíssimos, ou pelo menos deveriam ser, pelo menos os que chegam a gerente–geral, para merecer um salário que torna R$ 400 mil uma quantia insignificante…

Imagino que fizeram uns trezentos aditivos aos contratos. O Sr. Paulo Roberto Costa, esse campeão confesso, explicou o porquê da diferença entre o custo inicial e o efetivo da obra: “Foi feita uma conta de padeiro”. Ora, ainda vem de deboche pra cima de quem trabalha duro para bancar a farra dos campeões?

De toda essa parafernália, esse pessoal quer convencer a gente do seguinte.

  1. Roubo? Que roubo?
  2. Superfaturamento? O que é isso?

 

Ou seja: não houve nada, nada, nada de premeditado. Apenas erros de cálculo, e tão leves que nem o próprio Conselho de Administração notou. Aliás, nem a presidente da Petrobras, e os diretores. A culpa (culpa?) deve ter sido das empresas mesmo… Fazer cartel para burlar o Conselho, a presidência da Petrobras, trapacear nas licitações… Que coisa feia, empresários, coitadinhos dos pobres! Quer dizer, coitadinho do pessoal do Conselho, do staff de Gestão da Petrobras e dos demais burlados.

E eu, que conheci a Petrobras do pessoal que vestia realmente a camisa, que participava dos Grupos de Melhoria da Qualidade, que compartilhava com as Associações de Qualidade, projetos pioneiros que deram certo, que diziam do seu orgulho em trabalhar naquela empresa, fico a pensar como essa gente estará vivendo esta história… — eles, que não ganham fábulas, mas apenas um bom salário, eles, que se fizessem “conta de padeiro” seriam demitidos, sem perdão.

Bandeira poetou “Vou-me embora pra Pasárgada…”, mas eu, que não tenho a fama do grande poeta, digo: “Vou-me embora pra Toscana, lá pode ser que encontre o Pinóquio”, o verdadeiro.

É. O primeiro de abril esse ano chegou antes. Para ser precisa, foi no final do ano passado, quando muita gente “caiu no primeiro de abril”. O que não sabíamos é que o “campeonato” poderia chegar tão longe.

Por isso eu lhes digo, meus amigos: Não é primeiro de abril, não. Às vezes, 2 + 2 pode virar 5, 6, 7, 8, 9… e até 18. BILHÕES.

Não seria a primeira vez.

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