O nome eu não digo

Acho que nunca ouvi minha avó pronunciar a palavra “câncer”. Ela sempre dizia “aquela doença”, como se o mero pronunciar do nome já atraísse a praga da doença para si ou para sua família. Aliás, naquele tempo, este hábito era comum entre os mais velhos.

Lembro bem que, estando ela já nos seus setenta e muitos, eu, que sempre a provocava repetindo a palavra muitas vezes, tentei convencê-la de que aquilo era uma bobagem, “uma mulher inteligente como você não pode ter medo de dizer uma palavra…”

Ela olhou-me nos olhos com firmeza e disse, lentamente: “Minha filha, palavras têm poder”. Dito isso, fez uns dois minutos de silêncio sem desviar o seu olhar do meu… Eu já sabia o significado desse olhar, e sua tradução era: assunto encerrado, inegociável.

Bom, nessas alturas, você deve estar se perguntando: “De volta para o passado, Daisy?”

Sim, exatamente isto. Meu pensamento voltou-se para o passado no último domingo, o de Páscoa, quando, seguindo nosso costume, recebi meus filhos e suas famílias para o lanche da tarde.

Ver meus netos juntos, celulares desligados, conversando e rindo, me deu um conforto e uma alegria indescritíveis, muito maior do que em outras reuniões, e vou lhe dizer por quê. Acontece que naquela manhã li sobre um jogo na internet que atrai adolescentes. Até aí, tudo bem, existem zilhões de jogos do tipo, que até eu, cuja adolescência ficou lá no outro século, gosto de jogar. Só que o malfadado jogo de que falo agora brinca com a morte. Sim, você não leu errado, com a MORTE. O último desafio é o suicídio. Um jogo que atrai especificamente adolescentes.

Ora, qualquer um, por mais boçal ou ignorante que seja, sabe que adolescentes são pessoas em “construção”, por assim dizer, pessoas que estão passando pelo processo fisiológico mais revolucionário que existe, depois do crescimento que ocorre na vida intrauterina, bastando lembrar que grande parte dos órgãos duplica de tamanho nesse período da nossa vida. Uma verdadeira revolução hormonal, na qual um desequilíbrio pode trazer consequências indesejáveis no comportamento e no emocional do adolescente. E ainda tem um complicador: a questão biológica nem sempre coincide com a idade cronológica.

A adolescência é por si só, justamente pela quantidade de mudanças físicas e emocionais, uma época conturbada, muitas vezes não compreendida adequadamente pelos pais, que repreendem seus filhos como se fossem crianças, mas no momento seguinte exigem deles um comportamento de adulto. Não compreendem que, por mil razões, a adolescência é, naturalmente, um momento de contestação, de rebeldia, por ser uma época de transformações rápidas e profundas e de busca da própria identidade.

Olha, devo confessar que das tantas empreitadas que tive na vida, e foram muitas, a tarefa mais difícil foi a de ser mãe. Para as outras estudei, tirei uns diplominhas, fiz grupos de estudo, de trabalho… Mas para ser pai ou ser mãe, vai-se a que escola? A Escola da Vida.

A técnica? Tentativa e Erro.

A estratégia? Sensibilidade e Amor.

É disso que vocês, pais e mães de adolescentes, vão necessariamente ter de lançar mão para impedir que cânceres como este site do tal jogo entre em suas casas pela tela do computador. Um adolescente conturbado cai facilmente no discurso sedutor de uma pessoa dessas, e quem criou um jogo desses deve ser qualificado, isso sim, como um câncer da humanidade.

Levar pessoas confusas, inseguras, ao suicídio? É coisa impensável. Um crime como este deveria ser classificado como crime hediondo.

É isso. Assim, deixo um pedido emocionado para que vocês estabeleçam com seus filhos, especialmente os adolescentes, uma relação de confiança, de entendimento, de cumplicidade, para que eles se sintam à vontade para recorrer em caso de dificuldade, qualquer dificuldade.

Falei, disse o que penso. Mas o nome do jogo malévolo eu não digo, porque é como um câncer.

Afinal hoje sou avó, tenho todo o direito de não querer dizer uma palavra que mata. Claro que há uma diferença: minha avó não dizia por medo, eu não digo por revolta. Dizer o nome seria divulgá-lo, fazer propaganda, e não vou ficar divulgando o nome de um site assassino.

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