Por que será?

"Berceuse", de J. Brahms

“Berceuse”, de J. Brahms

A cena não poderia ser mais rotineira: almoço de família, num restaurante que não é o top de sofisticação nem o mais simples do pedaço — um businessman, três adolescentes e eu.

Como já sou conhecida por meus protestos quanto ao uso de celular nessas ocasiões, a princípio todos conseguiram se conter. Mas… como business is business, uma minirreunião de negócios apontou na esquina e os adolescentes, rápidos como um raio, sacaram seus apetrechos e começaram aquele digitar febril.

É… o homem sério naquele momento não contava dinheiro, mas continuava fazendo dinheiro. Eu, humildemente reconhecendo que trabalho não escolhe momento, calei minha humilde boquinha e passei a praticar um dos meus passatempos preferidos: observar.

Há quem veja nisso uma tendência a ser voyeur, mas prefiro não rotular. Se rotular for preciso, prefiro chamar de “ossos do ofício”. Você, caro leitor, conhece alguma escritora ou algum escritor que, de vez em quando, não se fecha em si mesmo e passa a observar (e imaginar) o seu entorno?

Eu não, definitivamente não conheço este ser. Escritores costumam exercitar sua emoção exatamente a partir do entorno, acho.

Coube-me a visão da mesa em frente, mais exatamente em frente e à direita, o que me dava a chance de visualizar todo o movimento das pessoas ali sentadas, sem que meus companheiros de mesa atrapalhassem absolutamente nada.

A minirreunião acabou; alguns momentos, depois começou outra, mas entre um pitaco e outro, ou em meio a risos ou a comentários irreverentes dos jovens, eu continuava dividida. “Por que será”, era a pergunta que eu me fazia. Logo eu, a primeira a chiar quando o povo esquece que está “em relacionamento” e entra naquele diálogo surdo, virtual, sem resposta, dos Facebooks e Instagrams da vida?

Enfim, o almoço acabou, e após os beijinhos e abraços de praxe, fomos embora, felizes pelo encontro. Mas a face da mulher da mesa vizinha não me saía da cabeça.

Era uma mulher chinesa, acho. Poderia talvez ser coreana, sempre confundo as características de pessoas dessas nacionalidades. Uma mulher chinesa, ou coreana, e velha. Muito velha. Tão velha que poderia ter uns duzentos anos. Enrugada, é verdade, mas que cara de paz!

Lembrei-me do que me dizia minha avó — minha velhinha era uma filósofa nata: “A fisionomia da pessoa no seu envelhecer vai adocicando porque ela entra em contato com os anjos”.

Ah! Entendi. Aí eu entendi tudinho. Saquei por que não conseguia tirar os olhos da cena, onde o encanto da velha enfeitava mais a mesa do que a bela toalha, do que os pratos cuidadosamente preparados: ela exalava generosidade, exalava a paz dos que, mesmo envelhecendo, estão fortemente conectados ao encanto da vida.

E resolvi escolher este assunto para a minha crônica desta quarta porque, em meio a tantas fotos ligadas à sessão de impeachment que corre o Brasil, uma imagem me impactou: justamente a foto do lugar onde estavam sentadas as pessoas do entourage da presidente acusada. Olhando bem aquelas faces, o que vi?

Desencanto, mágoa, desconexão. Rugas feias, porque não são rugas apenas do tempo, mas rugas de mágoa não resolvida.

Por que será? Por que será que resolvi escrever sobre isto nesta quarta?

Pois lhes digo, caros leitores: para louvar a conexão da velhinha com os anjos. Ela, certamente, já conseguiu exorcizar todos os seus demônios, para dar voz e vez aos anjos.

E dedico uma canção de ninar para ela, desejando que encontre seus anjos e, um dia, durma seus sonhos em paz.

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