Sinal dos Tempos

“Um a um os ovos foram transferidos dos tubos de ensaio para as vasilhas maiores, a linha peritoneal foi cortada (…) e em seguida o material foi levado à sala de Predestinação Social”. ( Aldous Huxley , Admirável Mundo Novo)

Pra que eu fui reler este livro?

Numa semana de noticias nada alvissareiras, aqui no Brasil e no mundo, num desfilar patético de briguinhas ridículas, tome-se como exemplo  a  exibição de poder entre o Mr. USA e o  bochechudo Kim Jong – un, exibicionismo  que pode trazer absurdas consequências para todos nós, até pra mim, pacifista ferrenha e consciente, que dá um boi para não entrar numa briga e a boiada inteira para não sair dela…

Bom,  realmente ler jornal esta semana deve ter sido um exercício torturante de mandar o otimismo e a paciência para o brejo. Preferi reler Huxley.

Tá. E aí dou de cara com essa frase, e aí cismo com ela e aí?

Ah, o que anos atrás me pareceu evidente ficção cientifica  hoje nem faz o coração bater mais rápido, no máximo aguça a curiosidade para saber onde e como está sendo realizada a pesquisa, em que fase está.

Nessa altura do campeonato agradeço aos céus que não escrevo ficção cientifica, imagino que a cada dia fica mais difícil pra escritores que estão no estilo encontrar assunto… Quase tudo já está por aí.

Mas claro que fui pesquisar sobre ectogênese depois de ler  a frase de Huxley . Para quem não sabe, e nem tem por que saber, ectogênese é a procriação de um ser humano através de uma matriz artificial, quer dizer, um substituto para o útero.

Sim, hoje em dia tudo pode ser falsificado, até um útero humano, quem diria… Pesquisadores japoneses do Dep. de Obstetrícia e Ginecologia  da Universidade de Juntendo  desenvolveram a  EUFI – Extrauterine Fetal Incubation (incubação fetal extra-uterina). E já tem um tempinho isso, do jeito que o Japão faz tudo em segredo, a pesquisa já deve estar muito mais adiantada do que está publicado…

E o Dr Yoshinori Kuwabara, diretor do tal Departamento, diz que “será sempre melhor que um feto imaturo possa acabar seu desenvolvimento num ambiente semelhante ao organismo materno”. Até aí…

Mas eu cá com as minhas questões viajo na maionese e vou adiante. Vocês já pensaram que revolução isto faria nas relações entre as pessoas? Casais não precisariam mais de “barrigas de aluguel”, aliás, nem precisaria ser casal, bastaria alguém ter poder aquisitivo, o vínculo biológico tenderia ser substituídos pelo vinculo genético e por aí vai.

Estando essa técnica disponível, as mulheres resolveriam quando e de que modo teriam seus filhos sem ter que engordar, perder oportunidade de trabalho, viajar, em suma, nunca mais teriam de deixar de fazer sei lá o quê. Estariam “grávidas” e livres para voar.

Simples assim: escolhido o “material” numa loja, observada sua especificação, prazo de validade, componentes, enfim, verificado ser um bom produto, a compra efetuada e o produto completado com material da mãe (ou do pai). Mas isto no  caso que esteja semipronto e precise de complementação. Se estiver pronto melhor ainda, é só alugar o espaço, pagar o aluguel e esperar o tempo sem nenhum tipo de envolvimento emocional, sem medo de que a “barriga” venha mais tarde arrepender-se, tudo tranquilo…  Eca, assepsia demais pro meu gosto.

Olha, eu só espero que você não esteja rindo ou pensando: A Daisy enlouqueceu.

Eu pensei isso quando li Huxley pela primeira vez.

Deixe um comentário!