Trabalho – Uma Questão de DNA

Morro Branco, Ceará
Morro Branco, Ceará

Morro Branco, Ceará

Estava eu num quiosque na praia, como de hábito bebendo minha água de coco após pedalar. Contemplava a beleza daquele mar imenso, azulão, quando ouvi a voz conhecida de um amigo que não via faz um bom tempo e ele dizia: – Que vida mansa, hein, não trabalha mais, agora é “fiscal da Natureza”, né?

Claro que levei na brincadeira, mas depois fiquei refletindo.

É impressionante como as pessoas fantasiam a vida dos outros. Mais; é impressionante como o conceito de trabalho é impregnado por mitos.

Ora, depois de me aposentar – além de escrever, faço ainda esporádicos workshops e Palestras – eu diria que me dei o direito de posar de “fiscal da Natureza”. Pois o amigo que me fez a afirmação em tom crítico, ainda acrescentou que não sabia como eu aguentava ficar parada.

PARADA? Eu? Respondi rindo, e quando enumerei algumas das minhas atividades ele foi notando que “parada” não seria exatamente o adjetivo que poderia aplicar para mim. Mas não se deu por satisfeito e continuou, dizendo “é diferente, a pessoa trabalha quando sai de casa, vai à luta, pega seu carro, ou ônibus, ou metrô, e vai enfrentar oito horas de atividade. Isso sim, é trabalho”.

Percebo como é comum essa postura das pessoas, e aí me lembro de uma amiga engenheira que me revelou “quando faço um trabalho com prazer, com facilidade, eu fico até duvidando da eficácia do resultado”.

Ou seja, o resultado de um trabalho realizado com prazer fica sob suspeição. Sim, porque a nossa cultura reforça que trabalho tem que ser duro, tem que fazer suar, tem que doer.

Não é à toa que a palavra trabalho tem origem no latim tripalium – ferramenta de três pontas com que se imobilizavam os bois e cavalos para lhes colocar ferraduras.

Taí! Deve ter sido na origem que se inferiu que trabalho é sinônimo de estar “ferrado”. Era também o nome de um instrumento de tortura usado contra escravos e presos, atividade que gerou o verbo tripaliare, significando torturar, e que depois virou o nosso bom e velho verbo trabalhar.

É… DNA é fogo, não mente jamais, não engana e nem disfarça, mesmo que seja o DNA de uma palavra.

Já os saxões adotaram a origem grega, a palavra work vem de weorc, evolução de ergon que em grego significava trabalho.

Acho que escolheram melhor. A tal palavrinha tripalium serve até para denominar instrumento do diabo… Pode?

Bom, para mim, e sorry a quem pensa diferente, mas acredito exatamente no contrário do que vejo muitas vezes dizer . Para mim, o trabalho anda de mãos dadas com o prazer, e quando isto não acontece aí sim, o seu resultado fica bem suspeito, porque essa história de “o suor do meu trabalho” saiu de moda desde que inventaram o ar condicionado.

Para pessoas como eu, que fazem da escrita o seu ofício, contemplar a Natureza e as pessoas é uma ferramenta de trabalho. Não tem três pontas, tem sim, infinitos lados, e core, escritores são voyeurs no melhor sentido da palavra.

O fato é que depois que meu amigo seguiu adiante, passei uns vinte minutos pensando no assunto.

Quer dizer, contemplando o mar e trabalhando o meu tema.

Sem suar.

Rindo de uma orelha a outra.

Puro prazer.

Deixe um comentário!