Vale tudo?

rio_musical_tim_maia_divulgacaoFiquei na dúvida entre escrever sobre um filme, afinal sou apenas uma cinéfila, não entendo absolutamente nada de cinema.

O cinema transporta, leva ao céu e ao inferno, a Paris ou ao Piauí. Julio Bressane fez “Matou a Família e foi ao Cinema”. É, há quem vá ao cinema para matar a culpa, o tédio, os problemas. Há quem vá ao cinema para viver emoções.

É isso, escrever sobre esse filme é falar sobre emoção. Aí, vale. Minha dúvida foi embora.

Ir ao cinema ainda é das poucas formas de diversão acessível, mais barata que essa só mesmo a praia. Isso, se levar sua própria cervejinha, ou seu refri. Isso, se conseguir entender por que um coco (unzinho só) custa seis reais (no barato), enquanto um refri custa cinco. Ora, para fabricar um refri é preciso montar uma fábrica, pagar luz, comprar equipamentos, contratar gente, pagar impostos, isso tudo envolvendo Propriedade Industrial, ANVISA etc. e tal.

Fico me perguntando qual a lógica que dá origem a essa diferença, e concluo que vale tudo na lógica de mercado. Não, não estou defendendo que o refri custe mais caro. Só não estou concordando é com a disparidade, será que a Mãe Natureza está cobrando royalties? Sabemos que sim, visto os tantos tsunamis, tornados, e tremores, mas… Royalty para coco?

Enfim, voltando ao cinema, fui assistir “Vale Tudo”, um belo filme. Produção impecável, som dos melhores, direção que extrai o melhor de cada desempenho, emoção a todo vapor o tempo todo. E o genial Tim Maia, com sua história dramática.

Baseado no livro de Nelson Motta, o filme dá o que pensar, quando assistimos ao despedaçar do sonho de um incrível talento angustiado.

Lembrei-me do conceito de “inteligência emocional”… Imagino quantos Tins existem por aí. Pessoa inseguras, que não se aceitam e que estão sempre se “medindo” com o outro, que só admitem o próprio sucesso quando é maior que o do outro, que só percebem seu próprio valor quando são elogiados pelo outro, só notam que têm dinheiro quando seu bolso é maior do que o do outro, e ficam sem a menor noção do quanto fizeram para desenvolver-se, perdem a capacidade de apenas valorizar, sem comparações, o quanto lutaram para conseguir levar sua vida adiante, neste vale-tudo que é a vida.

Mas será que na vida vale tudo mesmo?

Há uma cena em que o personagem Tim diz qualquer coisa como: “Você só percebe o próprio sucesso quando o outro te sinaliza isto”. O sucesso seria então somente o reconhecimento, as palmas, o aplauso? O sucesso seria vencer uma disputa? E se fosse, por que não disputar com o próprio trabalho anterior, analisar o que foi feito para aprimorar, e o que prejudicou? Será que vale dar tanto poder ao outro, a ponto de regular a própria vida a partir das realizações de outra pessoa?

Será que vale sair chutando o mundo, disputando espaço até com sombras, negando a si mesmo, num discurso irônico que faz da própria origem uma arma para agredir e para justificar comportamentos nem sempre aceitáveis?

Respondo aos Tins que por acaso existam, que, certamente, não, a vida é cruel em sua cobrança. Foi assim com Tim Maia, com o genial Tim Maia, a voz do soul, o ritmo da alma, uma força da Natureza como o próprio filme anuncia. Um tornado, uma tempestade de sons que magnetiza até hoje.

Em uma das suas falas, o personagem Tim diz que foi atropelado, e que na placa do veículo que o atropelou estava escrito o próprio nome. É assim, a vida cobra. Foi-se o ser angustiado, ficou sua voz, o seu soul. Sua alma intrépida, inconstante, agora deve estar em paz.

Valeu, Tim. Mas não valeu tudo. Quem sabe, você poderia estar cantando por aqui até agora, como deve estar cantando onde estiver: “Não precisa de dinheiro pra poder cantar, sou canário do reino, canto em qualquer lugar…”

 

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