A boca da verdade

Bocca_della_veritàBocca della Verità, Roma. Um rosto com a boca aberta…

Era, originalmente, uma tampa de esgoto romano, e reza a lenda que, na Idade Média, os maridos levavam suas mulheres até a Boca da Verdade e as obrigavam a meter suas mãos dentro dela. Se a mulher fosse infiel, a Boca engoliria a mão, daí o nome. A lenda se espalhou, e a Boca ficou sendo o tira-teima, a detentora de mentiras.

Confesso que a feiura da Boca é assustadora. Seria a Verdade assustadora também?

O tempo passou, a tampa de esgoto virou atração turística, mas por aqui a Verdade parece que continua assustadora. Tenho pensado nisso desde a campanha eleitoral, tal a quantidade de mentiras que percebemos nos discursos inflamados e repetidos dos políticos. As palavras são sempre as mesmas: “Vou fazer e acontecer”. Para cada um deles a Educação é salvadora e a Saúde será também prioridade, e blá, e blá, e mais blá.

Programas para um futuro governo? A candidata que apresentou o rascunho mais sólido não conseguiu convencer o povo. Ficou a promessa de um novo que não é tão novo, e a ameaça de, mais uma vez, elegermos um governo que se identifica com outros governos que ferem a natureza pacífica do povo brasileiro.

Já tivemos no Brasil dias tenebrosos, é certo. Tivemos repressão, tivemos tortura, e conseguimos superar. Não podemos regredir, não podemos aceitar mais nenhum “Conselho” regulador da imprensa, nem discursos paternalistas, que fazem da pobreza a sua bandeira, e que, por isso, mantêm a pobreza “no seu devido lugar”. O próprio Lula declarou ipsis literis, em 2000 (encontrei o vídeo no YouTube):

(…) lamentavelmente, você tem uma parte da sociedade que, pelo alto grau de empobrecimento, ela é conduzida a pensar pelo estômago, e não pela cabeça. É por isso que se distribui tanta cesta básica… porque isso, na verdade, é uma peça de troca em época de eleição. E assim, se despolitiza o processo eleitoral. Você trata o povo da mesma forma que Cabral tratou os índios quando chegou ao Brasil, distribuindo espelhos (…).[1]

Como assim? O que mudou? Mudei eu, que acreditei no discurso naquela época? Ou voltamos ao tempo de Cabral, ali… quase na Idade Média?

Ah, Boca da Verdade, engole, engole. Mas não engole a mão de ninguém, não. Engole a mentira, engole a demagogia, e vomita o poder do povo naquela outra Boca, a boca da urna.

 

[1] http://www.youtube.com/watch?v=CTMckO9i53A

 

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