As dores de um divórcio

Eheringe zerbrechend“Fizemos surpresa, algumas pessoas não sabiam o porquê da festa”, contou-me a amiga, cineasta, sobre a festa em que abriu os portões da sua casa na Maria Quitéria, Ipanema. Deve ter havido surpresa para alguns: a festa anunciaria um divórcio. Divórcio de gente descolada, civilizada, que se respeitava e, por que não? Ainda nutriam afeto um pelo outro. Achei incrível, e nunca mais soube de outro evento como este.

Divórcios, em sua quase totalidade, são recheados de mágoas, de brigas, e às vezes de tanto desrespeito que a gente custa acreditar que um dia aqueles dois já se amaram. Há um dito popular que afirma que o “ódio é o oposto do amor”, embora Freud tenha afirmado que o oposto do amor é a indiferença.

Disse-me um mestre oriental, de outros tempos, que acredita mais na hipótese do amor x ódio, pois os dois nascem do umbigo e aí eu acredito, pois, segundo ele, os dois nascem no chakra conhecido no hinduísmo como svadhisthana, ponto que se localiza entre o umbigo físico e o osso púbico e cuja energia é o Poder Criador. O chakra é responsável pelo aproveitamento e absorção dos alimentos e fluidos e rege as energias da reprodução, sexualidade e criatividade.

Para viver o amor, a pessoa mobiliza todas as formas de emoção; para viver a indiferença, a pessoa desmobiliza todo um conjunto  de interesse, emoção, doação e tudo o mais que alimentava aquele amor. Tenho para mim que é muito mais difícil, diante da ruína ou do desgaste do amor, conseguir ficar indiferente. Afinal, em meio à ruína, ali estão esperança, sentimento de fracasso, quase sempre quebra de confiança, mágoas, tempo perdido, enfim, todo um pacote de sentimentos menos nobres, que geralmente produzem atitudes também menos nobres.

Aí fico pensando: o que vivemos hoje no Brasil é mais ou menos parecido. Vivemos um divórcio. Divórcio de um casamento arranjado, apoiado em falsas premissas e grandes expectativas, em que um dos “cônjuges’ mentiu desde o início, o que gerou a quebra de confiança. O outro lado percebeu que não houve investimento intencional positivo na relação.

Ora, meus amigos, confiança quebrada é igual aquela louça preciosa, do tempo da vovó, que depois de espatifada, nunca mais se poderá juntar os caquinhos. E haja sofrimento. Dores. Choros. Desaforos de ambas as partes, um querendo colocar a culpa no outro e ninguém olhando o próprio umbigo.

O governo diz que pedalou porque precisava honrar compromissos com o povo, mas, ao mesmo tempo, jogou as contas do “casal” num buraco tão profundo que, como tem sido divulgado, se começarmos agora, neste momento, uma gestão econômica com competência e cuidado, no ano 2020 estaremos devendo 91% do nosso PIB.

Noventa e um por cento. Se começarmos agora.

Pois bem. Ontem, a senhora presidente deixou a arrogância de sempre numa daquelas gavetas em que estavam escondidas a contabilidade verdadeira, e veio se justificar. Outro dia chegou mesmo a falar em pacto. Pacto? Com quem, cara pálida? Com o povo enganado? Com a classe política, esta que está aí, e que teremos que engolir, porque, afinal, somos brasileiros? Com os economistas que avisaram, avisaram, avisaram e não foram considerados? Com a mídia, que os aliados do governo apontam como responsável pelo fracasso, porque cumpre seu dever de informar?

Ora, quebra de confiança não se resolve com palavras pacíficas, pronunciadas por quem, uma semana antes, ouvia em seu próprio palácio um chamamento à desordem, à invasão, e não disse uma palavra para conter o absurdo. Que chegou a tal descontrole, que um mero funcionário do Itamarati, por sua conta e risco (assim foi divulgado) expediu email para todas as representações brasileiras no exterior avisando que aqui acontecia um golpe de estado, quando estão envolvidos no processo de impeachment o STF, a Câmara e o Senado. Só este fato mostra a qualidade de gestão neste governo. O outro, o do chamamento à desordem, praticamente contou com o patrocínio da maior autoridade do país, que tem como uma de suas atribuições mais importantes zelar pela segurança nacional.

Como aceitar participar de um pacto decente? Como voltar a acreditar? Como ser solidária com esse tipo de gestão que deixou estourar o problema, e que só sabe justificar suas faltas e erros acusando outros de serem golpistas? E argumentando que presidentes anteriores também fizeram isso? E por que razão o PT não denunciou à época, não provou, não fez o que está sendo feito hoje?

Minha senhora, fico solidária, mas é com as pessoas que estão sofrendo as consequências do seu desgoverno. Meus amigos, meus filhos, meus sobrinhos e minhas sobrinhas, que tentam consertar sua casa tirando leite de pedra, tentando equilibrar seus orçamentos para tentar resolver no âmbito doméstico os problemas que o governo criou, com sua arrogância e incompetência (isto, na melhor das hipóteses).

Neste divórcio, como em todos os outros, salvo raríssimas exceções, ainda vai haver muito sofrimento, porque as dores ficaram todas com o povo brasileiro.

Deixe um comentário!