A Língua do Povo

De vez em quando gosto de sair da minha “zona de conforto”. Deixo o carro em casa, esqueço que existe táxi e lembro que existe ônibus, metrô, BRT. Como eu me amo, evito os horários de grande fluxo, porque em horários de pico sei que o bicho pega, e eu teria que sair disputando lugar.

Andar em transporte coletivo, para mim, é uma forma de ouvir a voz das ruas, sair do encastelamento e conhecer o sentimento das pessoas mais humildes, aquelas que não têm o privilégio de ter um carro, ou de poder usá-lo para trabalhar. Só isso já mostra o absurdo, em outras partes do mundo (mesmo aqui no Brasil) até as pessoas mais abonadas usam transporte coletivo. No Rio de Janeiro, não. Algumas pessoas amigas, que eu sei têm alma boa e espírito democrático, entendem essa minha atitude como excentricidade. Não é. Não estou querendo me fazer de importante, claro que converso com pessoas que não tiveram e não têm as mesmas oportunidades que eu tive e tenho, mas isto não me basta. Quero ouvir a conversa espontânea, as críticas, os lamentos, as alegrias do meu povo.

Pois bem, na semana passada, num BRT, ouvi um papo muito interessante entre dois homens e uma mulher. A mulher declarou que trabalhava como faxineira num escritório, eram quatro da tarde e ia para o trabalho. Um dos homens era garçom e o outro não declarou profissão. Despertei para o assunto deles quando ouvi o garçom dizer que “Vai ser muito difícil sairmos desta crise porque o superavit primário…”.

Superavit primário? Aí eu comecei a bisbilhotar a conversa.

O garçom começou a explicar para os outros dois o que era o superavit primário ” É o que se economiza nos gastos públicos para pagar os juros “, e que seria difícil alcançar a meta estabelecida… “Bom, pelo menos temos meta desta vez, porque a presidente anterior disse que teríamos uma meta aberta, e que quando ela fosse alcançada, dobraríamos a meta”… Como percebeu que só eu fiz ar de riso, ele explicou aos seus interlocutores…“Gente, se a meta é aberta quer dizer que não é medido o número, e aí como é que saberíamos que ela foi alcançada?”

A mulher riu alto, bem mais que o outro interlocutor.

Sim, riu muito mas depois disse: “Ainda bem que eu tenho emprego e que eles precisam de mim lá, ninguém sabe fazer nada além de ficar no computador”.

Disse o terceiro participante “É, dona, mas quem não tem emprego como eu está ferrado, tô me segurando com o salário desemprego, mas já ouvi falar que vão tirar”.

O garçom – “Não, isto não fariam, só se houver fraudes”.

– Mas que fraude um desempregado poderia cometer, se só pode receber 1 salário – desemprego? – diz o desempregado.

– Simples, o senhor poderia voltar ao trabalho e continuar se dizendo desempregado. Aí ficaria acumulando dois benefícios. Muita gente faz isso.

– Ah, mas acumular Bolsa – Família pode?

– Isso eu não sei lhe dizer, nunca me interessei por esse tipo de benefício, sempre preferi ir à luta.

Disse a mulher – Mas a Bolsa é legal, uma porção de vizinhas minhas recebe.

Perguntou o garçom – E elas trabalham?

– Claro que não.

– E fazem o quê?

– E eu sei, saio pra trabalhar de manhã e só volto tarde.

– Vai ver não fazem nada – diz o garçom – muitas pessoas se acostumam e não se estimulam para conquistar outro patamar na vida. Enquanto isso, não há ensino decente, salário mínimo decente, e….

A mulher interrompeu – Meu filho estuda em escola particular, porque…

O garçom – Meus dois filhos também, um já faz faculdade.

O outro homem ia dizer qualquer coisa, mas o garçom se despediu – Está chegando a minha estação, até mais.

Fiquei encafifada com aquele garçom que sabia o que era superavit primário e que ensinou algumas outras noções de economia que eu não contei aqui para não prolongar o assunto. E ele nem usou vocabulário economês…

Naquela altura a minha estação já havia passado, e eu me perdi na bisbilhotice. Saltei atrás do garçom e não resisti, perguntei como ele entendia tanto de economia.

– Porque FUI economista.

– Fui? Não, você é. Ninguém deixa de ser economista.

– Depois de ficar quatro anos desempregado, de vender seu apartamento no Flamengo para pagar dívidas e os estudos dos filhos, depois de fazer cursinho no Senac para ser um bom garçom, deixa sim. Eu às vezes penso que nunca fui economista.

O que eu poderia dizer? Apenas estendi a mão para ele, e lhe desejei boa sorte.

É…, a língua do povo é ferina, e quando pode ser espontânea, conta cada verdade…

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