Dia dos Vivos

Sempre me intrigou a história de dar comida a espírito.

A primeira vez que estive num centro espírita, ainda no início da adolescência, muito me surpreendeu saber que cada entidade tinha sua comida predileta, que era oferecida no dia em que era festejada. E não era só para a entidade, mas para todos os presentes.

Tinha música, dança, festejo, e eu fiquei imaginando que era manifestação africana, e que não acontecia com outros povos. Só mais tarde verifiquei que comida, dança e festejo para os mortos aconteciam com muitos outros povos – o que na minha família de cultura judaico-cristã seria impensável.

Da mesma forma, o dia 2 de novembro, destinado a celebrar os Mortos, em minha família era um dia para curtir tristeza. Não se podia ouvir música, as pessoas ficavam compenetradas, e, porque não dizer, tristes. Era dia de visitar sepulturas de familiares, rezar por suas almas, enfeitar os túmulos com flores e acender velas em sua homenagem.

Passa o tempo que passa, e eu me deparo com outras culturas e descubro que não é sempre assim.

No México, por exemplo, os festejos começam no dia trinta e um de outubro, seguem até o dia dois de novembro. Come-se e bebe-se como em dia de Carnaval, a alegria desfila pelas ruas e se estende aos cemitérios, no melhor estilo pagão.
No Japão também se faz homenagens, mas no estilo japonês, em que o comedimento dá o tom. Apenas a comida é uma semelhança entre os que festejam os mortos durante o Festival de Obon, só que não acontece em dois de novembro, acontece no verão japonês.

O dia dos Mortos para os ocidentais foi definido pelas autoridades católicas no século XII para ser no dia dois de novembro, porque o dia primeiro era Dia de Todos os Santos.

Já no budismo a homenagem aos mortos é explicada na Urabonkyou.

A Urabonkyou é uma escritura budista que conta a história de Mokuren, um dos aprendizes de Buda. O homem estava preocupado, pois em seus sonhos, o espirito de sua mãe estava com fome. Resolveu levar uma vasilha com arroz ao túmulo da mulher, mas no caminho a vasilha foi consumida por um fogo que apareceu inexplicavelmente. Mokuren correu a aconselhar-se com seu Mestre, que lhe aconselhou a preparar comida e bebida em homenagem aos pais falecidos, e levar de oferendas aos monges no verão como gratidão e respeito, para libertar e promover a elevação espiritual de sua mãe.

Mokuren seguiu a orientação e quando Buda confirmou a libertação do espírito de sua mãe, ficou tão feliz que começou a dançar com muita alegria.

Fiéis ao sutra, mesmo as famílias que moram longe de onde estão enterrados seus entes queridos viajam nos dias do Festival para estar próximos deles, pois acreditam que durante o Festival os espíritos conseguem voltar para receber as homenagens.

A celebração começa por acenderem fogueiras e lanternas que são colocadas em frente às casas, para que os espíritos enxerguem o caminho. No interior geralmente existem altares com frutas e água, como oferenda aos espíritos. Também faz parte das comemorações, a visita, limpeza e ornamentação das sepulturas, onde depositam as refeições especiais que prepararam para honrar os antepassados. Em muitos cemitérios armam palcos onde é dançada a Bon Odori, dança coletiva típica, com movimentos muito simples, para que todos possam repetir.
No último dia dos festejos, fazem o okuribi, fogueiras imensas acesas ao ar livre, para que “os espíritos encontrem o caminho de volta ao mundo espiritual. ”

Hoje eu entendo perfeitamente a história, eu mesma faço, sempre que possível, oferendas aos meus Antepassados, com profunda Gratidão por terem permitido a minha existência.

Afinal, eles não estão tão mortos assim – os elos espirituais que temos, mostram que meus olhos lembram os olhos de um, minha boca lembra a boca de outro, e por aí vai.

O que me faz pensar que eles continuam, de alguma forma, vivos – nas semelhanças que as leis da hereditariedade proclamaram, e, acima de tudo, na minha lembrança e na minha Gratidão.

#cuide-se, é melhor homenagear os mortos do que receber homenagens no dia dois.

1 Comment

  • Daisy disse:

    Leila Reis
    >> Sempre aprendendo com você e me emocionando. Amiga, admiro sua pesquisa e carinho ao nos brindar com suas crônicas. Gratidão por ser quem você é. Te amo !❤️

    Denise Peon
    >> Realmente, é necessário reverenciar nossos antepassados com todo nosso respeito e amor por tudo que nos passaram!!Um Bj pra vc

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