O Desafio do Olhar

Muita emoção. E tanta, que amarelou o meu sorriso, enverdeceu o meu olhar, azulou meu coração. Acho até que meus cabelos embranqueceram no sufoco da vitória ( ou da derrota) eminente. E, empaticamente, me transformo num jogador. Sou, agora, o atacante que olha seu adversário olho no olho, cara a cara, no momento do drible, como a lhe dizer “Você é o meu desafio, vou te fazer de João. Você, com o falar das suas pernas musculosas (mas não tanto como as minhas), você, com o seu próprio pensar, mas sem poder adivinhar o meu próximo movimento”.

E súbito, se espelha o medo. E lhe digo entre dois chutes “Você está aqui, comigo, mas não está em mim, e vai ser testemunha da minha vitória”…

Ter de imaginar como eu reagiria, o que pensaria, como meu instinto e minhas pernas responderiam é mais que o desafio do olhar adversário. É implacável, cruel, como deve ser todo desafio, para que não caia na vala comum do realizável.

É, artilheiro, já cheguei ao fundo de você, vi seu mais íntimo desejo, remexi suas tripas, mas ainda não consegui encontrar a sua voz. Muito menos jogar o medo para escanteio.

Apesar de tudo o exercício não me esgota, e eu me renovo no pensar, me revisito e aos meus próprios conceitos, aos meus próprios pensamentos, cada vez que tenho que dizer o que nunca diria, pensar como nunca pensaria, para poder construir uma voz e um pensar. Afinal o meu personagem desta vez tem uma experiência que eu nunca tive, arrebenta redes enquanto eu apenas me arrebento de emoção.

E você, meu personagem, fica aí, me olhando, me provocando, ave pousada em tronco frágil, sem a consciência de que pode despencar e cair no meio da mata ao ouvir o apito que anuncia o final do jogo.

Apesar de tudo, artilheiro, é doce o seu olhar. Tem um ar de desamparo, como criança à espera do beijo da mãe, ou da repreensão: acho que sabe que precisa de mim para existir e teme que, se eu não te inventar, existe a hipótese de que jamais alguém possa fazê-lo.

Atendo ao que os seus olhos me pedem, e empresto, por um tempo, a minha voz à sua voz, o meu tempo ao seu Tempo, a minha emoção ao seu desespero. Entretanto, não caia em ilusão: a minha doação é passageira. Certamente, amanhã terei, ou inventarei, outro desafio. Talvez não tão interessante como foi você antes de se tornar realizável, mas o novo desafio terá, certamente, o encanto da busca, da mudança, do impossível.

Apesar disso, não se entristeça: nunca vou esquecer quem por algum tempo me fez vibrar em emoção, me fez sentir a vida batendo cá dentro – do peito, do sangue, da alma. Você, que me força a acreditar no amor, na dor, na tristeza, e na alegria, e que me atiça o desejo de, por minha vez, desafiá-lo para que me mostre onde está a sua verdade. Você que me fez perceber que não estamos só, há toda uma torcida a esperar que vençamos o desafio.

Impossível esquecer você, que me fez afiar o ouvido para entender o canto dos pássaros, a fala do vento, o choro da chuva… E o grito de GOOOOLLLL!

Deixe um comentário!