Queimando Dinheiro

Sabe daquelas impressões que batem na sua emoção, e um impacto vira imagem inesquecível?

Foi o que senti quando, adolescente, visitei pela primeira vez o Museu da Quinta da Boa Vista e me deparei com ossadas de dinossauro, e com o meteorito de Bendengó.

Para recordar

O Museu da Quinta da Boa Vista não era apenas um lugar desses que crianças e adolescentes pudessem achar um passeio chato, desmotivador. Ao contrário, em qualquer país que tivesse um mínimo de inteligência e respeito à sua História e à Ciência, seria também um lugar de entretenimento, um espaço em que, como muitos no mundo e até aqui no Brasil, os visitantes pudessem interagir e participar ativamente de exposições interativas.

Bom, mas isto se existisse RESPEITO. Pelo menos isso: respeito à coisa pública. Só que, atualmente mais do que nunca, respeito é raridade.

E não só por causa da corrupção, mas também por causa do descaso e do mau uso das verbas para Cultura. O conceito de Cultura, de uns tempos para cá virou “show” de artista de sucesso, filmes que contam vida de cantores, e assemelhados.

Gravador primitivo, fabricado pela companhia de Thomas Edson e utilizado por Roquete Pinto, que fez várias gravações de cantos e cerimônias indígenas.

Onde já se viu uma Lei de Incentivo, vejam bem… “Incentivo”, em lugar de incentivar prioritariamente, novos valores e talentos, ou a História do país, subsidia artistas – até com prestigio internacional, que são plenamente capazes de produzir seus trabalhos através de captação de patrocínio que não lhes faltaria caso apresentem um bom trabalho.

E esta ainda é uma questão menor porque, afinal, como todas as leis brasileiras, se prega que o acesso é “universal” – quer dizer…qualquer um cidadão brasileiro, dentro do perfil exigido, estaria apto a ser beneficiado.

Gostaria de descobrir em quê a vida de um artista da atualidade seria mais interessante para a Cultura brasileira do que a vida de brasileiros que a História já consagrou…

Pois é este conceito de Cultura que a meu ver, está absolutamente distorcido, com objetivos dúbios, que não contemplam a verdadeira Cultura brasileira, é este conceito que nunca deu a menor confiança e crédito a um Museu que abrigava, segundo ouvi no noticiário, o quinto acervo mais importante do mundo, com milhões de peças que jamais poderão ser recuperadas: fósseis de diversas partes do mundo, esqueletos de enormes dinossauros, múmias e esquifes egípcios, armas de civilizações primitivas, e várias referências importantes da vida dos indígenas brasileiros em diferentes épocas.

O meteorito Bendengó, encontrada no século XVIII pesando mais de 5 toneladas.

O Museu foi criado para estimular o conhecimento científico no Brasil e como instituição de Pesquisa foi incorporado à UFRJ, oferecendo vários laboratórios para estudos de Geologia, Antropologia, Botânica e Zoologia, e cursos de pós-graduação.

A tragédia estava sendo anunciada desde 2009, ou até antes. Mas que governante daria importância a um museu que… Ora, com tanta coisa que aparece mais, não é?

Este é o fundamento do nosso conceito de Cultura – Cultura é o que aparece, o que rende prestígio, o que rende voto.

Depois do incêndio, acho que no dia seguinte, já apareceu um recurso de 10 milhões oferecidos por um Ministério, cinco de outro…, quer dizer – o $ estava lá, HAVIA DINHEIRO, mas não havia intenção.

Agora surgem mil ideias brilhantes, que vão arder como ardeu o Museu.

Houve realmente, queima e desperdício de dinheiro ali, mas o pior que está sendo queimado nessa história toda, é a dignidade da cultura brasileira.

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