Espiral do Tempo

Bateu uma gripinha, sei lá será uma gripona, pegou de surpresa pelo menos quatro pessoas da família, e fez-se necessário certo repouso. Repouso? Dá-lhe de recordar.

Recordar o tempo em que uma gripe era, e apenas era, um resfriado. Na verdade, pouco se usava a palavra “gripe”, as pessoas tinham “resfriado”. A gripe era, digamos assim, o resfriado que se tornava mais grave.

Não havia nada de H3N2, H1N1, ninguém falava em vírus Influenza, e o remédio para os resfriados mais fortes, renitentes, era “Vitamina C e cama”. Cama para dormir, repousar, é claro. Repito: para repousar.

Não estranhe, vou logo esclarecendo porque nestes esquisitos tempos… (li no jornal que uma professora até passou dever de casa com a Mônica… sim, a inocente Mônica do maravilhoso Maurício de Souza, fazendo afirmações de conteúdo sexual…) Inacreditável, não é?

Mas voltando ao nosso tema, gripe à moda antiga, havia também a recomendação de que se ingerisse limão até não aguentar mais.

Era a “mezinha” que sempre dava certo.

Ah, por falar nisso, você sabe o que é (ou foi) uma “mezinha”? Sem consultar o Google, claro. Hum…, pode ser, mas acho que não.

O que eu sei é que sempre dava certo; uns dois dias e fim da doença. Aliás, ao que me lembre, nem era considerado doença, era apenas… Resfriado.

“Coisas do progresso”, diria minha mãe. E continuaria: “No meu tempo…”. Mas eu não vou trilhar o mesmo caminho, embora concorde em parte com o que ela dizia.

E ela dizia que o ser humano não sabia administrar suas descobertas e tecnologia, e que o próprio homem era quem transformava o progresso em quase fracasso, porque ganhava de um lado e perdia tanto por tantos outros aspectos.

Já li em algum lugar que as doenças estão cada vez mais resistentes e sofisticadas e que o próprio ser humano é que facilita esta mutação. Não tenho a menor condição de afirmar seja verdade isso, mas coincide com o que minha sábia e velha mãe dizia.

Enquanto repouso, navego pelo passado. E aproveito para citar um trecho do meu romance A Clandestina:

“Difícil é navegar pelo passado, que passado é tempo de ninguém mais; passado é o que sobra do que não foi. Mesmo assim, pra se entrar nele tem que levar documentos, atualizar passaporte, reviver ilusões, relembrar sonhos perdidos e até mesmo matar alguns que, resistentes e sonhadores como fica bem que sejam os sonhos, não se aperceberam que ficaram para trás, num tempo que se esgotou.

Mas não pense que a gripe atacou minha memória, não esqueci a pergunta lá de cima, e quem lembrou-se do significado, ou o conhecia, escreva in box, fiquei muito curiosa para saber.

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