Meus heróis morreram

“Desde criança eu gostava de brincar na lama”, dizia a mulher numa voz calma e controlada.

_ Pois é, mas agora foi só uma brincadeira – alguém respondeu.

_ Se os homens que nos contrataram soubessem o que é morrer com lama entrando pelos olhos, nariz, goela adentro, talvez tivessem mais cuidado no seu trabalho.

_ Não creio, diz a mocinha que caminha um pouco mais à frente. A ganância e a certeza da impunidade anulam a consciência.

_ Minha mulher, meus filhos, como estarão agora? Devem estar desesperados, claro que estão.

_ Calma, calma. Tudo vai se resolver, tudo se resolve.

_ Vai ver o mundo acabou e eles estão por aí…

_ Nós sabíamos, sabíamos…

_ Não, eu não sabia, se soubesse…

Alguém, numa voz ponderada, argumenta:

_ Nós todos sabíamos, mas quem teria a coragem de ir contra o que nossos “patrões” diziam? Eles afirmavam que estávamos seguros, que…

Foi quando eu, observando a cena, comecei a pensar: realmente, quantas vezes nos deixamos enganar, mesmo desconfiando que por trás de palavras de incentivo está uma grande mentira.

Quem de nós, diante de umabsurdo, tem a coragem de se manifestar colocando em risco nosso trabalho, nossos planos, nosso futuro?

Quem de nós, vivendo num país de 11 milhõesde desempregados, tem a ousadia de contestar mesmo quando vê que o perigo pode estar ali, perto de nós, sentado na cadeira ao lado, e que um dia tudo pode desmoronar?

De tudo o que se passava o mais estranho é que as pessoas não choravam, e pareciam mesmo não estar sofrendo. Caminhavam juntas, alguns de mãos dadas, todos com um ar de tranquilidade no rosto.

Segundo um texto espírita que recebi, estes são heróis.

E são mesmo, esses heróis não morreram de qualquer overdose que se possa imaginar, morreram de overdosede lama. Lama na qual chafurdam os que não tiveram, ao longo dos anos, visão e coragem para estabelecer protocolos inteligentes que, se não pudessem evitar, diminuíssem os estragos de um evento que pode ser chamado de tudo, menos de desastre natural, este desastre causado pela incompetência ou pelo descaso de dar um “basta” em situações que colocassem em risco não a produção, mas VIDAS.

Acredito que, pelas providências que vimos serem adotadas, o momento do “basta” chegou. Assim espero.

O fato é que deste pesadelo acordei chorando. Chorando de tristeza, de revolta, de vergonha. Vergonha pelos que não tiveram vergonha e se omitiram.

2 comentários

  • Regina Lucia Amaral do Nascimento disse:

    É o momento do basta…Nao a impunidade 💔

  • Denise Oliveira Peon disse:

    Realmente a tragédia de Brumadinho só traz tristeza ,vergonha e medo que as coisas
    continuem como estão! Tantas medidas tomadas ,terá fiscalização? As pessoas responsáveis pensarão no “outro”? Vá saber!!!!

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