NÃO É SÓ UMA QUESTÃO DE OSSO, MAS…

Quando colocaram prótese em meu quadril muitas preocupações me assaltaram: andaria eu outra vez como antes, ficaria capenga, poderia correr, a cirurgia teria êxito?

Bom, isso aconteceu seis anos atrás e as preocupações felizmente não aconteceram.

Mas uma coisa eu não sabia e aprendi durante o processo de recuperação: ossos têm memória e meu novo osso, de titânio, teria que construir uma memória. Coisas simples que antes aconteciam automaticamente passariam a ser ações pensadas, planejadas e só então executadas. Por exemplo, subir um degrau qualquer, fosse ele de uma escada ou um simples degrau de calçada. Meu osso novo não conhecia a distância e eu tive que treinar como fazer isso tudo novamente. Consegui, mas, como garantia, desde este tempo nunca mais subi ou desci uma escada sem estar grudada no corrimão, e posso dizer que FELIZMENTE esta foi a única sequela que ficou.

Associo este evento ao que vejo agora: a falta de memória que campeia em nossa cultura.

Vejamos: acontece um episódio tristíssimo em Mariana, e anos depois acontece um pior em Brumadinho. Acontece um episódio tristíssimo numa boite em que morrem tantos jovens e anos depois morrem dez atletas queimados numa concentração de time de futebol.

E eu pergunto: onde está a memória das autoridades, e mesmo a nossa memória que só é posta em ação diante de uma nova tragédia? De tantas tragédias anunciadas, qual delas foi impedida de acontecer?

Onde estavam as autoridades que ficaram multando, multando e multando, mandando avisos, avisos e avisos mas não impediram que as tragédias acontecessem?

Onde estávamos nós, que sabíamos que alguma coisa estava errada e não fomos às ruas para denunciar, não fizemos barulho para impedir?

Ah, a bendita acomodação… o não-querer-se-incomodar.

Afinal, pelo menos aqueles jovens não estavam escondidos…, muitas pessoas conheciam as condições em que eles viviam.

Mas nada foi feito e, depois que a coisa acontece, chegam autoridades e outros, para dizer: “eu multei, eu fiz e aconteci”… BALELA, uma simples comunicação de papel não é nada diante do que poderia ser feito por poderes instituídos. Ou seja, nada foi feito.

Mas não adianta olharmos para o passado se não for para aprender nossa lição.

A lição está aí, e a primeira delas é que temos que recuperar nossa memória, juntar nossos ossinhos do cérebro cultural, para que surja um crânio reluzente, uma cultura brasileira cidadã, que aprendeu sua lição.

Não vou ser simplista e imaginar que a questão é somente esta, mas já é um bom começo para estarmos aptos a impedir uma tragédia por ano.

1 Comment

  • Denise Oliveira Peon disse:

    Estas autoridades são incompetentes!Vamos torcer para que não tenhamos “repetecos”trágicos e tristes como estes recentes!

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