Voltando à Infância

Em não sendo escritor ou escritora, talvez você não se dê conta, mas conceber um personagem às vezes deixa quem está escrevinhando meio fora do tempo e do espaço, porque a “cabeça” voa, tipo pipa voada mesmo.

Criar alguém que tenha consistência e veracidade suficientes para convencer o leitor a chegar à vigésima página é um desafio. E no desafio você tem que utilizar métodos e ferramentas de tudo quanto é tipo e espécie, até imaginar que alcançou seu objetivo.

Sim, imaginar porque… certeza? Nenhuma, feedbacks serão recebidos quando entregar seu texto ao editor. Mesmo assim, feedbacks positivos não garantem nada, absolutamente nada… seu livro pode ficar morando eternamente numa prateleira da livraria ou, agora, numa seção qualquer de um site.

Dito isto, começo a contar qual o meu dilema do momento.

Novo personagem, já definido em linhas gerais e a trama se passa em tempo outro que não o tempo pandêmico. Só que… a extensão da dificuldade que toda a humanidade passa no momento (forte isso, né?) não me dá permissão para ignorar a questão da perda. Sim, a humanidade chora perdas. Mesmo quem não passou pelo sofrimento de perder alguém próximo, está vivendo a dor da perda, por solidariedade.

O personagem me espera, me olha com olhos interrogadores cada vez que abro o computador, tenho que dar-lhe uma resposta. Assim, volto à minha busca, pesquisando o tema “perda e comportamento” e encontro a Síndrome de Bambi.

É bizarro como fábulas e histórias infantis guardam conteúdos profundos, que você identifica mais tarde, tornando à leitura na idade adulta.

É o caso da Síndrome de Bambi.

Vamos recordar um pouco: Bambi é um cervo – bebê que vive na floresta feliz e protegido pela mãe, que lhe ensina a dar os primeiros passos e orienta que fique vigilante com o bicho-homem, que quer matá-los.

E é o que acontece à sua mãe, quando sai da proteção da floresta e vai à campina, buscar alimento: um caçador consegue alvejá-la…

Mas Bambi permanecerá sozinho na floresta, sem proteção? Não. Nesse momento surge o pai, Príncipe da Floresta, que o observava, orgulhoso, ao longe, no alto da colina.

Pronto, notou o recadinho? Está lá! A mãe é o símbolo do cuidado e do carinho, enquanto o pai é o ser orgulhoso, o Grande Príncipe da floresta, que observa ao longe sua cria. Mas, no momento em que vê o filho sozinho e desprotegido, sem ter a mãe que simboliza o carinho, surge o “macho”, o pai, que vai prover a segurança e tudo o que Bambi precisa. Seu primeiro movimento para resolver a questão é pedir ao Corujão que lhe consiga uma corsa para cuidar do filho, mas durante o tempo em que o Corujão demora a encontrar a corsa, o Príncipe é levado a conhecer o filho.

Sim, ele vai ter que aprender a lidar com aquele serzinho que mal sabe andar, que ainda não sabe subir ladeiras, nem conseguir alimentos. Se não sabe lidar com o filho, como vai lidar com seus súditos?

Como o mundo é uma bola que não para de girar, felizmente, de vez em quando a vida faz um gol e as percepções mudam.

Em muitos lugares (sinalizo a restrição porque, pasmem, para muitas pessoas isso ainda não mudou) o “macho” já assimilou outros papéis e pode explorar e demonstrar outros tipos de atitude e sentimentos, e a mulher já não tem que segurar sozinha a onda de ser “fonte inesgotável ‘ de carinho, cuidados e proteção.

Continuando a pesquisa conversei com três profissionais da Psicologia… e o incrível é que todos os três me disseram que a tal síndrome está ligada à morte de animais “fofinhos”, animais que não apresentam nenhum risco, que não simbolizam o perigo da floresta.

E os feinhos, como é que ficam, minha solidariedade a eles.

Amigos, desta vez viajei mesmo… de pandemia a Bambi e a beleza ou feiura. Mas resta-me o consolo de ter encerrado o texto com solidariedade, que é o sentimento que compartilho com todos que de alguma forma estão vivendo perdas – seja de pessoas, de empregos, de saúde.

# parece que estamos entendendo melhor esse tsunami alucinado que atingiu o mundo inteiro
#vamos nos manter firmes e atentos, para que esse caçador cruel não consiga nos alvejar.

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